Narro como sinto – Capítulo 19

A comunidade contemporânea
Ao
passar pelo portal da sala onde ocorrera uma assembleia de docentes da nossa
unidade acadêmica, ouvi a seguinte frase: “Eles
quase venceram”.
Essa
frase revela um conceito perturbador: a divisão da unidade em vencedores e
perdedores. A dicotomia entre os "nós" e os "eles", o
"eu" e o "adversário", demonstrava um desejo de combate ao
diferente.
Essa
frase, que revela a crença do docente que a pronunciou, surgiu de onde? Qual a
fonte, a origem dessa crença?
Surgiu
de um processo democrático de escolha entre duas propostas alternativas. Antes
da votação, ocorreu o debate. E no debate, foram se revelando as presenças dos
“nós” e dos “eles”. Mesmo havendo, como no meu caso, quem estivesse ali apenas
para fazer uma escolha, não para tomar partido nem dividir a Unidade. Apenas
para escolher a proposta que parecesse mais adequada àquele propósito.
Não
tinha eu a pretensão de ser o
senhor da verdade, aquele que faz a melhor escolha. Com a minha formação de
engenheiro, faço escolhas a
partir de um conjunto de especificações e de um critério de adequação.
Entretanto, admito que meu critério possa ser diferente do outro. Isso leva a soluções diferentes, sem a
classificação de melhor ou pior. Todavia, havendo votação para promover a
escolha, haverá a proposta vencedora, sem problema. Exceto se os defensores da
proposta escolhida se considerarem
os vencedores.
Exatamente
aí se encontra a origem da verdade do vencedor e da divisão da unidade
acadêmica. Poderia ser diferente? Pode! Basta simplesmente trocar o debate pelo
diálogo.
Neste,
a premissa de que devemos buscar o que existe de comum funciona como princípio
de formação da comunidade. Procurar o que temos em comum, respeitando e
valorizando as nossas diferenças, é fundamental. A diferença, em vez de
dividir, enriquece a comunidade, conferindo-lhe um caráter diverso e unido. Eu
e o outro somos diferentes e, ao mesmo tempo, fazemos parte de um todo. Assim,
construímos uma escola que merece ser reconhecida como uma Universidade.
É
curioso observar que a existência do fundamentalismo próprio de cada grupo – a
verdade dos “nós” e a mentira dos “eles” – não é um defeito da modernidade, mas
sim uma consequência dela.
Os
processos de produção do conhecimento, dos bens de consumo ou de capitais
levaram a um distanciamento progressivo dos seres humanos, conferindo à
comunidade um caráter cada vez mais artificial. Com a proliferação da internet,
todos ganharam voz, mas muitos apenas gritam em seus próprios ecossistemas em
vez de dialogar. A audição, por sua vez, tornou-se cada vez mais seletiva,
filtrando as informações que confirmam as próprias crenças.
A
presença dos grupos fundamentalistas na nossa unidade acadêmica não apenas
destrói a comunidade, mas também promove um clima de julgamento sumário e
condenatório. O outro é visto como inimigo, destinado à eliminação.
Tenho
escutado de alguns jovens que esses problemas são consequência de brigas
antigas, de intrigas do passado, etc., e que se resolverão com a aposentadoria
dos mais antigos.
Discordo.
Em vez disso, acredito que o futuro dependerá das escolhas que os mais jovens
fizerem. Se escolherem como legado um diálogo sincero e construtivo,
considerando o outro como fundamental para a construção de sua própria
identidade, poderemos superar essas divisões. Caso contrário, herdarão o ódio,
o medo, o ressentimento e a ingratidão, perpetuando-as.
Hiran de Melo
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