Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO I


Como voar tendo raízes

 

Resumo

 

O texto estabelece um diálogo poético entre um Pé de Cravo e um Pé de Rosa, personificando a dualidade entre o desejo de transcender e a necessidade de enraizamento. O Pé de Cravo, ansioso por explorar o mundo, simboliza a busca pela liberdade e a expansão da consciência. Ele anseia por viajar e disseminar seu perfume, representando a transcendência dos limites físicos e a conexão com o infinito. Por outro lado, o Pé de Rosa, apegada à segurança e ao conforto do jardim, representa a necessidade de raízes e a resistência à mudança. Ela valoriza a estabilidade e a previsibilidade, temendo o desconhecido. O Pé de Cravo convida a Rosa a transcender seus limites e a permitir que seu perfume se espalhe pelo mundo, sem perder sua essência. O texto conclui com uma reflexão sobre a importância da jornada em si, mais do que o destino final.

 

Palavras-chave: transcendência, enraizamento, liberdade, identidade, natureza, tempo, espaço, perfume, jornada, destino.

 

No Jardim de Todos Nós, habitam flores de variados perfumes, dentre elas conversam amavelmente um idoso Pé de Cravo e uma vistosa Pé de Rosa. A partir de agora, chamaremos de Seu Cravo e Sua Rosa.

 

Seu Cravo: Fui proibido de me apaixonar.

 

Sua Rosa: Por quem?

 

Seu Cravo: Por Aquele que escreveu meu nome duas vezes.

 

Sua Rosa – Sei.

 

Seu Cravo – Qualquer dia irei à Ilha de Itamaracá.

 

Sua Rosa – Levando as suas raízes?

 

Seu Cravo – Sim e não. Sim, porque por onde se vai, as raízes nos acompanham. Não, porque sempre estamos ligados ao terreno em que nascemos. Viajarei levado pelo Sopro. Ele conduzirá o meu perfume por todo o caminho até a Ilha de Itamaracá. E meu perfume lá chegando, eu também lá estarei. 

 

Sua Rosa – Poderei ir contigo?

 

Seu Cravo – O Sopro levará o seu perfume. Na Imensidão poderemos ser um, sem deixar de sermos dois. Nas areias da ilha poderemos nos embalar no cântico de Lia e cirandar até o amanhecer do novo dia.

 

Sua Rosa – Que amor! Entretanto, não sei se quero ir.

 

Seu Cravo – O Sopro não irá lhe perguntar. Foi o Sopro que lançou a Semente, da qual nasci, aqui neste jardim. À Semente nada foi perguntado.

 

Sua Rosa – Gosto de estar aqui com as minhas amigas. Tudo tão confortável, tão previsível. O jardineiro vem todos os dias cuidar de nós. Faça chuva ou faça sol. Tudo tão seguro. Prefiro o meu perfume fechado nesse jardim.

 

Seu Cravo – O perfume que exala não mais lhe pertence. Pertence à Imensidão e o Sopro o leva independente da sua vontade. Em nós habita o que nos pertence e o que está destinado a ser livre, a ser levado pelo Sopro ou pelo Tempo. Já exalei durante muitas primaveras perfumes juvenis.

 

Seu Cravo – As rosas não deixavam de me admirar. Hoje nem tanto assim. Só velhas amigas roseiras ainda olham para mim, com a empatia própria de quem vive em situação similar. Quando o Jardineiro aparece, causa até um certo temor. Tenho um pressentimento que chegou a hora dele me arrancar do jardim. Então, o que transcendeu os limites foi o perfume que o Sopro levou. Tenho aquele quase temor, mas não tenho apego ao Jardim. Ele é de Todos Nós e ao mesmo tempo não pertence a nenhum de nós.

 

Sua Rosa – Compreendo. Mas, não sei se quero ir.

 

Seu Cravo – Viajarei sorrindo, abençoando todos os lugares por onde o meu perfume passar. E, então, o Sopro será bem-vindo. Não só os enamorados o sentirão como uma dádiva. Os solitários, também. Bela e adorável Sua Rosa, independente do seu querer, você será por todos abençoada pelo seu perfume e desejada por muitos. Entretanto, como as suas raízes estão fixadas em terra firme, no Jardim de Todos Nós, ninguém poderá lhe possuir. Você será cantada pelos tenores, declamada pelos poetas, abençoada pelos pastores... tudo isso, sem tirar suas raízes do jardim. Deixe apenas o seu perfume fluir.

 

Sua Rosa – Sei. Então, fale da Ilha de Itamaracá.

 

Seu Cravo – Ah! Bela Sua Rosa, lá nunca fui. O sopro não carregou o meu perfume para lá. Todavia, o destino não é o mais importante. O que vale mesmo é o caminho. Não é chegar lá, mas como lá chegar. E lá chegando deixarei que as minhas expectativas sejam menores do que as coisas novas que irei perfumar. Mesmo sem conhecer, posso lhe garantir, valerá muito lá estar. Em verdade, posso até imaginar os lindos e bons lugares os quais o meu perfume esteve, mas nunca poderei descrevê-los como eles realmente são. Apenas como os sinto a distância espacial e temporal.

 

Sua Rosa – Então, fale das suas histórias já vividas.

 

Seu Cravo – Até que gostaria. Mas, desisti de reviver os fragmentos das longas divagações que fiz na sua companhia. Até deletei da memória todas as nossas conversas. Sou muito inquieto para contemplar o passado. Prefiro criar o presente. Nesta criação, me vejo na companhia do seu perfume sendo levado pelo Sopro ao abraço da Imensidão.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

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