Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO II
Raios solares e o Jardineiro sombrio
Resumo
O
diálogo entre as duas flores revela a complexidade dos sentimentos humanos e a
busca por significado em um mundo imperfeito. O Pé de Cravo, marcado por
experiências passadas e pela ausência de um amor perdido, expressa seus medos e
incertezas. Ele questiona a própria existência e teme ser esquecido. A Pé de
Rosa, por sua vez, busca confortar seu amigo, incentivando-o a viver o presente
e a apreciar a beleza da vida. O tema da poda, representada pelo Jardineiro,
surge como uma metáfora para as mudanças e desafios da vida. A possibilidade de
ser podado causa angústia no Pé de Cravo, que teme perder sua identidade. No
entanto, a Pé de Rosa o encoraja a encarar a poda como uma oportunidade de
renovação e crescimento.
Palavras-chave:
amor, desejo, medo, esperança, mudança, identidade, natureza, vida, morte,
beleza.
No
Jardim de Todos Nós, o idoso Pé de Cravo, após acordar de um breve cochilo,
fica a contemplar placidamente a vistosa Pé de Rosa conversando alegremente com
outros Pés de Flores. Até que foi totalmente desperto pela voz querida.
Sua
Rosa – O querido dormiu bem? Sonhou com o quê?
Seu
Cravo - Fui proibido de sonhar.
Sua
Rosa - Por quem?
Seu
Cravo - Por quem escreveu meu nome duas vezes.
Sua
Rosa – Sim, sim.
Seu
Cravo – Será que o Jardineiro virá hoje nos podar? Ele o faz alegando que isso
nos propicia uma nova vida. Dói, mas o resultado até que é bom. Ruim é quando
ele considera que não vale mais a pena podar.
Sua
Rosa – Minhas amigas afirmam que você é muito charmoso. Por que não convida uma
delas para com o seu perfume viajar?
Seu
Cravo – Não posso fazê-lo, cabe ao Sopro decidir quem me fará companhia. Nem
mesmo sei se Ele me levará à Ilha de Itamaracá. Todavia posso escolher o
instante em que exalarei o meu perfume.
Bem,
se combinarmos em exalar os nossos perfumes no mesmo instante, teremos uma
grande chance de viajarmos juntos.
Já
compartilhei a fragrância mais doce com uma rosa deslumbrante, a mais bela
deste jardim. Juntos, exploramos paraísos recônditos, deixando nosso aroma em
cada canto.
Sua
Rosa – Hoje o Sol deu-me vontade de cantar, dançar, sorrir, exalar-me
inteiramente nua. Sinto minhas pétalas mais íntimas úmidas e vermelhas.
Quero
colorir o mundo, perfumar as núpcias de casais amorosos e apaixonados. Quero
invadir as Igrejas, os altares, o leito do rio. Quero me expandir ao Infinito.
Ser abraçada pela Imensidão.
Quero
dormir em braços esplêndidos e acordar bebendo o orvalho da madrugada.
Feche
os olhos, querido Seu Cravo. Gostaria até de trocar o S pelo M, tão apaixonada
me sinto. Feche os olhos para não me ver cada vez mais nua. Sendo apenas meu
amigo, você não deve assim me ver.
Seu
Cravo – Sei. Mas quem dera eu pudesse. Agora estou impedido.
Sua
Rosa - Por quem?
Seu
Cravo - Por quem escreveu meu nome duas vezes. Da frente para trás e de trás
para frente.
Sua
Rosa – Sei. Sempre cheio de mistérios e magias. Quando fala muito diz pouco e
quando pouco fala, diz muito.
Opa!
Lá vem o Jardineiro com ferramentas nas mãos.
Seu
Cravo – Não me assuste deste jeito. Certamente ele só vem remexer a terra em
que estamos plantados. E, assim, fortalecer nossas raízes. Ainda temos muitas
primaveras pela frente. Pelo menos, você terá com certeza.
Sua
Rosa – Deixe de dramas. Você é muito forte e vigoroso. Os anos lhe trouxeram
paciência e sabedoria.
Seu
Cravo – Ah! Se assim fosse. Trouxe-me foi o medo disfarçado em prudência. Nem
mais acredito com muita fé que quem se afastou voltará. E sem a presença dela
sou frágil como um Pé de Coentro. Temo até que o Sopro se vá sem levar o meu
perfume e o Jardineiro não me ofereça nenhum zelo.
Sua
Rosa – Para onde foi aquele que falou que o Jardineiro só viria remexer a terra
fortalecendo nossas raízes?
Seu
Cravo – Expressei mais uma esperança do que uma convicção. Como ter esperança
se quem me amou, ou me fez acreditar que me amava, embora estando tão perto se
mantem tão distante do meu futuro? Nem sei se posso falar do futuro nosso.
Sua
Rosa – Este seu papo está mais para Lagoa Seca. Prefiro que falemos da Lagoa de
Roça. Pois sempre depois dela vem a Esperança. Ignore o Jardineiro, ela fará o
que tem que ser feito. Aproveitemos os raios solares. Sinta que as suas folhas
estão belas e que seu perfume fará aquela que você ama se aproximar.
Seu
Cravo – Bendita seja Sua Rosa bela! Filha da Imensidão, gerada nas poeiras das
estrelas. Ilumina o Jardim de Todos Nós
como se fosse o Jardim de Cada Um.
Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo
e Aceito
e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.

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