Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO III


A fé que cura, salva e liberta

 

Resumo

 

O terceiro capítulo aprofunda a exploração dos temas amor, esperança e fé, introduzindo a figura do Jardineiro e seu ritual com a cuinha. A conversa entre o Pé de Cravo e a Pé de Rosa revela a complexidade dos sentimentos humanos e a busca por significado na vida. O Pé de Cravo, apaixonado e idealista, acredita no poder curativo da fé e da esperança. Ele sonha em encontrar uma cura para a dor da paixão e em ajudar os outros através de sua poesia. A Pé de Rosa, mais pragmática, questiona a eficácia da cuinha e a natureza da fé. O tema da fé é central neste capítulo, a cuinha, um objeto simples, adquire um significado simbólico, representando a esperança, a cura e a conexão com o divino.

 

Palavras-chave: fé, cura, esperança, amor, paixão, poesia, ritual, jardineiro, cuinha, vida, morte, significado.

 

O Jardineiro é um senhor de hábitos rígidos. Chova ou faça sol, ele acorda rigorosamente antes do sol nascer e, quando o astro-rei dá o ar de sua graça, ele já se encontra no jardim. Usa uma cuia para o banho matinal dos pés de flores. A cuia foi obtida mediante a partilha ao meio de um cabaço. E utiliza uma cuinha para tomar o seu medicamento. Não se sabe qual a doença que ele combate ou mesmo se está acometido de alguma doença. Não interessa. Ele coloca qualquer coisa nesta cuinha, olha para os céus, abre a boca e deixa cair o conteúdo presente na cuinha.

 

Dona Rosa, com um sorriso gentil, indagou ao Seu Cravo: Você está vendo o Jardineiro em seu ritual matinal com a cuinha?

 

O Seu Cravo bocejou, um pouco entediado. A mesma rotina, não é? O que há de tão especial hoje?

 

Sua Rosa replicou, de novo? Nada. Tem tudo de antigo. Uma amiga me falou que cura tudo, e nem precisa ter fé. Todavia, não pode ser uma cuinha qualquer. Antes ele fez o seguinte, e só uma vez: deixou-a no orvalho da noite; ao amanhecer, raspou o interior da mesma; levou-a ao sol. Claro, a cuinha sendo virgem, só ao Jardineiro pertence. Assim, ele não deixa ninguém tocar nela. Se alguém tocar perde a força do encanto.

 

O Seu Cravo, com um sorriso na ponta da boca, zombou: Meu Pai dos Céus! Quem dera eu poder possuir uma cuinha dessa.

 

Sua Rosa suspirou, negando com a cabeça. Você e suas fantasias, Seu Cravo poeta. A cuinha é apenas um objeto, e a verdadeira cura vem de dentro. Por que não cultiva um pouco mais de paciência e serenidade?

 

Com um brilho nos olhos, o Seu Cravo exclamou: Ah, se eu pudesse percorrer o mundo, curando todos os enfermos!

 

Sua Rosa suspirou, negando com a cabeça. "Aqui está você novamente, com seus sonhos de grandeza. A cuinha não é uma varinha mágica, Seu Cravo bobo. Ela só cura o dono. E você já está curado de todas as doenças, exceto de uma: a dor da paixão. Essa, nem a cuinha pode curar.

 

Seu CravoNão penso em mim. Penso em todos. E nem precisa fazer esta cara de quem não dá um centavo pela minha certeza. Está bom! Admito, penso nela. Daria a cuinha a ela. Assim, ela voltaria para mim.

 

Sua RosaVá sonhando acordado, que o Tempo vai passando. Esqueça essa que não lhe quer e se volte para quem lhe admira. E olhe que são muitas, viu?

 

Seu CravoSó me interessa misturar o meu perfume com o perfume dela e assim ser feliz.

 

Sua RosaQuem já se viu um bode teimoso desse? Para que subir montanhas se tem tudo aqui no vale? Se você não tomar jeito, irei me queixar ao Jardineiro.

 

Seu CravoSó me interessa o perfume dela...

 

Sua Rosa – Ai, ai, ai, é hoje. Só falta o poeta aparecer.

 

Seu Cravo começa a cantar feito doido;

 

O dia em que o mundo nasceu

É esquecido por quem nele não acredita

É perdido por quem nele nunca viveu.

 

Sua Rosa, fazendo de conta que tinha muitas coisas outras o que fazer, reclama: Só faltava! Agora, não mais. É hoje! Valei-me Senhora Imensidão! Dai-me paciência.

 

O dia em que o mundo morreu

É lembrado por quem nele medita

É consagrado por quem nele renasceu.

 

O dia em que o mundo existe

É o meu dia, o teu dia, de todos nós

É alegre para alguns, para outros é triste.

 

O dia em que te vi, me alegrei

Foi o dia do nascimento do Nós

Foi o dia em que um Sol virei.

 

O dia em que mais não te ouvi

É o dia da morte da saudade

Das coisas boas que já vivi.

 

O dia em que esquecesse de mim

É o dia da morte da ansiedade

Das coisas que um dia tem fim.

 

Sua RosaTerminou? Quando você começa nem respeita a minha ocupação. Se cuide, viu?

 

Seu CravoMinha santinha, perdoe-me. A poesia é a oração do coração. E ela é um ato de fé que cura, salva e liberta.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.


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