Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO IV
Nem tudo que fede é ruim
Resumo
O
quarto capítulo introduz a figura do Mestre Marçal e explora temas como
sabedoria popular, superstição e a natureza da cura. A narrativa se concentra
em uma conversa entre o Pé de Cravo e a Pé de Rosa, onde eles discutem as
histórias e lendas sobre o Jardineiro e seus métodos pouco convencionais. A Pé
de Rosa compartilha com o Pé de Cravo diversas histórias sobre o Jardineiro,
incluindo a utilização de um odor forte para afastar pragas e proteger o
jardim. Essas histórias, repletas de elementos folclóricos e supersticiosos,
geram um debate sobre a natureza da cura e a eficácia de métodos não
convencionais. O Mestre Marçal, com sua presença enigmática, serve como
catalisador para essas discussões.
Palavras-chave:
sabedoria popular, superstição, cura, natureza, jardim, mestre, magia, lenda,
folclore.
O
sol começava a se pôr, pintando o jardim com tons de laranja e rosa. Foi nesse
crepúsculo mágico que o Jardineiro recebeu a visita do Mestre Marçal. A aura
enigmática do mestre, sempre acompanhada de um leve sorriso, silenciou até
mesmo os mais agitados beija-flores. Mal trocaram cumprimentos, o mestre, com
um gesto sutil, aproximou-se das flores. Em suas mãos, uma pequena moeda
cintilava. Com um movimento rápido, ele a fez desaparecer diante de nossos
olhos, para o espanto de todos. Em seguida, inclinando-se sobre um pé de rosa,
revelou-nos que a moeda agora descansava sob suas pétalas delicadas. Um sorriso
misterioso se espalhou por seus lábios, e nós, perplexos, nos perguntávamos
qual seria o significado daquele gesto.
Sua Rosa – Oh
querido, que lindo!
Seu Cravo – Sim,
sim. Façamos silêncio. Daqui há pouco chegará a hora do Calatório, quando
esperamos que todos escutem atentamente o orador. O Mestre Marçal, com a alegria de sempre e com a costumeira preguiça,
fará uma longa pausa, mas jamais se negará de nos deixar uma bela lição.
Sua Rosa, sussurrando: estão cochichando que ele irá falar da sovaqueira feroz do Jardineiro.
Dizem que é a razão de não haver nenhuma praga no jardim.
Seu Cravo, mais prudente ainda: Menina, neste assunto ninguém mexe. Não
acredito que o Mestre Marçal terá tanta coragem.
Sua Rosa – Um
pé de flor mais antigo me contou que a biqueira da casa não funcionava e,
portanto, água da chuva escorria pela parede. Então o Jardineiro desceu a
camisa, passou a mão nas axilas, e colocou-a na biqueira. Um enxame de
marimbondos saiu voando, todos tontos pelo cheiro forte do líquido. Nenhum
ferrada a ser contada. Água em abundância, agora, escorria da bica, levando
embora a casa dos marimbondos defuntos.
Seu Cravo, fazendo de conta que estava surpreso:
Só acredito porque você colocou fé.
Sua Rosa – E
tem mais. Dizem que dois cabras-machos
vieram visitar o jardim e se desentenderam sobre qual era a flor mais bela e
partiram para uma luta mortal na base da faca amolada. Mas, foi só o Jardineiro
passar a mão no sovaco e conduzir tão poderoso
cheiro ao encontro das narinas dos cabras-machos que eles desmaiaram.
Pronto, fim da guerra. A paz voltou a reinar no jardim.
Seu Cravo – Menina,
menina, não exagere!
Sua Rosa, toda indignada: eu exagerar? Que você está ficando velho todo mundo sabe, mas que
estava doido nem eu sabia. Você não vê que não é necessário polícia no Jardim
de Todos Nós? Quando o sol vai dormir, o Jardineiro passeia sem camisa pelas ruas. Não fica ninguém nas ruas, nas
proximidades do jardim nem pensar. São portas e janelas se fechando e todo
mundo indo dormir. Na rua não ficam nem os vagabundos. E nem cachorro sem dono
late. Baixa as orelhas e corre para longe.
Seu Cravo
– Menina, menina, desde jeito que você conta, quando o Grande Mestre Marçal for
falar, nada mais terá o que acrescentar.
Sua Rosa – Ah, é assim? Pois fique sabendo que
só existia uma pessoa que se aproximava do Jardineiro sem colocar máscara, como
faz o Mestre Marçal, e convivia com o cheiro
sem se queixar. A sua maravilhosa
esposa. Sim, ele era casado. E bem casado. Nunca se soube de uma briga do
casal.
Seu Cravo
– Já estou achando que você sabe demais. Como é possível, tão novinha?
Sua Rosa –
Sim, sim. Não pense que a amada esposa tinha axila suja. Nada disso, era limpinha. A resiliência ao mal cheiro
tinha outra fonte. Ela não largava
o seu cachimbo, nem para dormir. Sempre preso no canto da boca, que por isso
mesmo já deixara a sua marca. E o fumo
forte que ela utilizava era tão intenso que nem precisava colocar fogo
para fazer o efeito esperado: era tão forte quanto qualquer axila e anestesiava as narinas.
O
mais curioso desta história, no entanto, era que o casal morava em uma casa bastante arejada. O comum em bairro humilde é que
as casas estão coladas, não
existindo becos separando-as. Em geral, as casas possuem 8 metros de frente. A
do glorioso casal também era assim, mas as suas vizinhas foram se afastando, se
encolhendo, até ficarem com 4
metros de frente. O que proporcionou dois canais de ventilação para a nobre
casa. Era a única da rua que possuía esse privilégio.
Seu Cravo
– Menina, menina, que chá você tomou? Você fica murmurando, mas todo mundo já
olha na sua direção. Ainda bem que o Mestre Marçal nunca se apressa, para ele é
como se o tempo não passasse. Depois disso o tudo, acho que você nada tem a
acrescentar, né?
Sua Rosa – Eu não acrescento nada! Só conto o
que sei. Não invento. Mas para matar sua curiosidade, vou lhe contar o restinho
do que sei.
Em verdade, o casal era uma graça para
os moradores do nosso bairro. Nunca houve ninguém com dengue. Embora os órgãos
ligados à saúde pública aqui nunca faziam visitas, a razão era outra. Não tinha
mosquito, por mais temerário que fosse, que não percebesse que no nosso bairro
existia um repelente natural.
Também não existia ninguém com sarampo,
nem febre amarela ou de qualquer outra cor; graças à presença amiga do casal,
estavam os moradores imunes a todo tipo de praga. E nós, também.
Seu Cravo – Virgem Maria! Como pude ser
tão cego? O Jardineiro é um verdadeiro anjo da guarda!
Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau
32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.

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