Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO IX


Queixar-se as rosas não é bobagem

 

Resumo

 

O Jardineiro, personagem central, utiliza a linguagem poética para expressar seus sentimentos de perda e esperança, dirigindo-se às plantas como se fossem confidentes. Através de suas palavras, ele busca encontrar consolo e significado para a dor da perda, comparando a vida a um ciclo contínuo de renovação. As plantas, por sua vez, representam a resiliência da natureza e a capacidade de superar as adversidades. A Senhora Dona Flor, em particular, simboliza a escuta atenta e a compaixão, oferecendo um espaço para que o Jardineiro expresse seus sentimentos. O ato de regar as plantas é utilizado como uma metáfora para o processo de cura emocional, representando a nutrição da alma e a esperança de um novo começo.

 

Palavras-chave: natureza, emoções, perda, esperança, cura, jardim, metáfora, ciclo da vida, resiliência, compaixão.

 

O rádio estava ligado e da lá se ouvia: A sua alma dorme com a roupa que passou o dia. Não é falta de higiene, a sujeira não atinge as almas. É um modo simples de demonstrar que não se está aberto a uma relação íntima. É uma forma dentre outras de criar barreiras a algo que não convém mais. Nada mais dolorido do que acompanhar uma relação que piora com o tempo. Um desejo de escapar do sofrimento, de encontrar solução próxima, todavia, tudo se mostra tão distante. Não é tão simples dizer adeus.

 

JardineiroDona Flor, bom dia. Vim regá-la como faço todos os dias. Trago a cuia cheia de água fresca que a purificará e nutrirá suas raízes.

 

Sua Rosa – Seu Cravo, querido. Escute, mas não olhe. O Jardineiro está falando com a Senhora Dona Flor. Ela balança as folhas como se concordasse com o que ouve.

 

Seu Cravo – Estou prestando a devida atenção. Já lhe digo.

 

JardineiroA Senhora sabe como é difícil se despedir. Sinto um desejo intenso de não querer perder o que já perdi. É como contemplar uma folha caída e vê-la murchar, sem poder fazer nada. Sei que é impossível devolvê-la à árvore, mas esse desejo impossível persiste.

 

Sua RosaNão faço a menor ideia do que o Jardineiro está dizendo para a Dona Flor. E você, meu bem, o que acha?

 

Seu CravoNão se preocupe com o que ele diz e como diz. Ele só quer ser ouvido. Fala, fala, até se cansar. E a Dona Flor fica aí, deixando o vento balançar suas folhas. Nem concorda, nem discorda de nada.

 

Jardineiro A árvore, com suas raízes fincadas no solo e sua copa alçando voo, é um lembrete de que a vida é um ciclo contínuo de renovação. Por que insistir em olhar para o passado, quando a cada novo dia temos a oportunidade de florescer e dar frutos?

 

Sua Rosa – Coitado! Deve ter lido muitos livros e se confundiu todo. E você, o que acha desse poeta de jardim?

 

Seu Cravo – Eu acho que ele precisa regar as ideias e cultivar um pouco mais a prática.

 

JardineiroExiste a esperança de que um novo jardim floresça em nosso interior? Talvez quando as lágrimas, que alimentam o oceano da tristeza, se transformarem em orvalho da manhã, nutrindo a esperança. A cada dia, observo sinais de que a cura é possível.

 

Sua Rosa – O que será que ele colocou nessa cuia? Deve ser alguma poção mágica! Quando é que ele vai parar de fazer de conta que é poeta e vai regar as plantas?

 

Seu Cravo Fique quieta. Cada um com suas loucuras, não é mesmo?

 

Jardineiro Haverá um amanhecer após a noite? O vento do Norte, em sua dança frenética, arrasta consigo a folha caída, assim como o tempo leva nossas alegrias e tristezas. Mas a semente, enterrada no solo, guarda em si a promessa de um novo ciclo.

 

Sua RosaOpa! Veja, o Jardineiro finalmente se dirigiu ao tanque e foi encher a cuia com o que nos interessa. Agora sim, ele se conectou com a rotina. Teremos, todos nós, água cristalina.

 

Seu CravoAh! Querida Sua Rosa. Ele já alimentou todo o jardim com os seus segredos revelados. Cuidou das nossas almas. Agora, está cuidando dos nossos corpos. Queixar-se as rosas nem sempre é bobagem. É certo que as rosas não falam, mas fazem companhia e exalam o perfume que oferece sentido à vida de qualquer ser. A Senhora Dona Flor fez a parte dela. Agora o Jardineiro está fazendo a rotina dele com maior contentamento.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

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