Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO V
O que a vida não ensina
Resumo
Neste
capítulo, o foco se volta para a figura do Mestre Marçal, um homem sábio e
conhecedor de diversas culturas. Sua interação com o Jardineiro e as flores do
jardim revela a complexidade das relações humanas e a profundidade da
experiência humana. O Mestre Marçal, apesar de sua vasta sabedoria, demonstra
uma profunda curiosidade sobre a morte e a perda. Suas perguntas sobre as
flores falecidas e sua conversa com a Pé de Rosa sobre o Professor e sua esposa
revelam a sua busca por significado e compreensão da vida e da morte. A
conversa entre o Mestre Marçal e a Pé de Rosa revela que mesmo os mais sábios
podem ter dúvidas e questionamentos sobre a vida e a morte.
Palavras-chave:
sabedoria, morte, amor, ódio, perda, conhecimento, vida, significado, Mestre
Marçal, Pé de Rosa, Pé de Cravo.
O
Grande Mestre Marçal era uma enciclopédia
ambulante. Mais do que isso, era um Buraco Negro de conhecimentos. Tudo
de tudo ele já estudou, desde os
mistérios interiores dos antigos egípcios até as viagens à fronteira do
universo. Compartilha seus
conhecimentos de forma generosa. Hoje, o tão fabuloso mestre só encontra
dificuldade em ouvir. Não é para menos... antes, ouviu o mundo.
Ao
se despedir do Jardineiro, ele gentilmente levantou-se do banco em que estava e
deu-lhe um abraço caloroso, apesar de seu porte avantajado. Um grande e fraternal abraço em agradecimento
à acolhida.
Sem
soltar o amigo lhe perguntou, olhando demoradamente para um canto do jardim: “o que havia acontecido com um pé de flores
que lá vivia antigamente”? Ao ouvir a resposta, soltou o Jardineiro
bruscamente. Aí saiu apontando para cada lugar vazio e fazendo a mesma
pergunta. Recebendo a mesma resposta: “morreu,
morreu”. Criando um clima de perplexidade
e tristeza.
Sua Rosa – Oh
querido! O que está acontecendo?
Que pergunta doida é essa!
Seu Cravo – Isso é inacreditável. Não consigo
compreender. Um ser tão pleno de conhecimento, a esta altura da existência,
fazendo este tipo de pergunta. A
resposta é óbvia.
Sua Rosa – Sim,
sim. Logo o Mestre Marçal que é conhecido como o Poeta dos Mortos. Pois dizem que sempre que vai a um funeral,
declama uma poesia nova e comovente em homenagem ao falecido.
Seu Cravo – Você sempre está muito bem informada.
Sua Rosa – Dizem que, quando morou em
Itamaracá, depois de viajar o mundo, ele ia todos os dias na direção da praia,
só de calção e camiseta, mas nunca entrava no mar.
Seu Cravo
– E por quê, menina?
Sua Rosa – É que antes existia o Bar do Seu Rio.
Sendo que no recinto, inevitavelmente, encontrava um velho amigo do dono do
bar, conhecido como Professor. Razão de nunca ter chegado até a praia da ilha.
E nunca ter caminhado nas areias banhadas pela Imensidão.
Seu Cravo – Menina,
você não me deixa terminar minhas
histórias! E ainda inventa essas coisas! Por hoje, não já está bom
demais?
Sua
Rosa: Inventadas? Nem pensar! São histórias que
todo mundo por aqui conta. Eu mesma já ouvi falar um milhão de vezes!
Seu Cravo – Sei,
sei. Continue.
Sua Rosa – Dizem
que o Professor era possuidor de uma cultura monumental, falava seis idiomas e
conhecia a Europa tanto pelos livros quanto pelas ruas das cidades do velho
continente. O contrário do Seu Rio,
este semianalfabeto, que mal sabia ler e escrever. O danado é que os dois eram
grandes amigos e passavam horas a conversar, diariamente.
Seu Cravo – Haja
mistério.
Sua Rosa – Com
sua curiosidade insaciável, o Grande Mestre Marçal fez a mesma pergunta aos dois: “Sobre o que os dois conversavam”? E eu sei lá! Um homem tão vivido,
fala seis línguas, mas ainda não aprendeu a falar a nossa. Sentenciou o Seu Rio. A resposta do Professor não foi menos surpreendente do que a do Seu
Rio. Ambos falavam muito, ambos não se escutavam. Ambos adoravam este estado de
plena fala e nenhuma escuta. E assim, continuaram amigos até que a morte os
separou.
Seu Cravo – E
você diz que eu sou cheia de mistérios. Veja como você fala. Um rodeio enorme e
ainda não contou o que aconteceu.
Sua Rosa – Calma,
benzinho. Não se preocupe. E claro, o Poeta dos Mortos esteve no funeral do
Professor para declamar a mais recente poesia de sua autoria. E como já
sabemos, todas as anteriormente declamadas pertenciam a ele. Ao chegar, teve um
choque. A causa de tantas bebedeiras estava abraçada ao caixão gritando: “Meu
amor! Meu amor! Você não poderia me deixar aqui”.
Seu Cravo – Menina,
você exagerou um pouco. Mas, agora lembro. Quem contou esta história aqui mesmo
foi o Mestre Marçal. O casal havia se separado há muitos anos, e a mulher, por
ódio, impediu que os filhos falassem com o pai. E aí, o Professor entrou em um
profundo e irreversível processo de decadência física e emocional. A mulher que
ele tanto amava o odiava sem cessar.
Sua Rosa – Querido, você é muito apressado. Nem
me deixou terminar.
Seu Cravo
– Santa paciência! Se continuar enrolando, eu mesmo termino por você.
Sua Rosa – A poesia improvisada, como um
repente, não vou recitar aqui. Mas, nela, o Poeta dos Mortos fez todos
entenderem que o ódio não é o oposto do
amor, como ensina o Apóstolo João. O oposto
do amor é o medo. No entanto, o ódio é uma forma extrema de continuar
amando quem não se deseja mais amar. A vida não nos ensina tudo, mas a morte
revela muitas coisas; a união não mostra
tudo, mas a separação sim.
Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau
32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.

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