Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO VI
Quando a magia e o encanto se vão
Resumo
O
texto narra a rotina de encontros no Jardim de Todos Nós, onde Dona Arida, uma
habilidosa contadora de histórias de terror, reúne os vizinhos para momentos de
suspense e medo. A narrativa descreve a atmosfera criada pelas histórias de
Dona Arida, que vão além do simples entretenimento, influenciando as emoções e
comportamentos dos ouvintes. O clima de medo e suspense é intensificado pela
descrição detalhada das reações das pessoas. No entanto, o texto também explora
a fragilidade da magia e do encanto, demonstrando como o medo e o sobrenatural
podem ter consequências duradouras na vida das pessoas e na dinâmica da comunidade.
Palavras-chave:
história de terror, tradição oral, comunidade, medo, suspense, magia, encanto,
superstição, narrativa, folclore.
Todos
os sábados à tarde, o Jardineiro recebe, no Jardim de Todos Nós, alguns
conhecidos para conversar. E hoje não será diferente. Entre todos, há uma
senhora que nunca falta e é, na verdade, o centro das atenções: Dona Arida. Ela
sempre traz: um quilo de pequenas bolachas redondas, duzentos e cinquenta
gramas de margarina “Bem Te Vi” e uma garrafa de café bem fraco e doce.
Em
pouco tempo, forma-se em torno da mesa um grupo de comensais ansiosos pela
iguaria e pelo "preço" que pagarão por ela. Esse preço é ouvir,
durante a lenta comilança, as histórias de assombração inventadas ou vividas
por Dona Arida. Ela tem um dom para contar histórias.
Ela
cria um clima de suspense, de modo que os visitantes comem muito mais para
disfarçar o medo do que por fome. A cada palavra de Dona Arida, os olhos dos
ouvintes se arregalavam e seus corpos se enrijeciam, como se estivessem sendo
hipnotizados por uma força invisível.
Não
se ouve outra voz além da de Dona Arida. No máximo, um sorrisinho tímido de
alguém tentando esconder o medo ou o ruído da mordida em uma bolacha crocante.
A história, como as demais, é narrada como se fosse um testemunho pessoal,
ocorrido em sua própria casa. E aqui no jardim, até as plantas parecem tremer
de medo.
Sua Rosa – Oi querido, ela já chegou! Não vá
dormir e me deixar sozinha ouvindo as histórias, viu?
Seu Cravo
– Impossível, minha querida. Já sei todas de cor e salteado.
Sua Rosa – Oxente, menino feio! Nem tente. Você
não tá doido.
Seu Cravo
– Se você não prestar atenção, nem vai ouvi-la.
Sua Rosa – Mas, eu quero conhecer as histórias.
Seu Cravo
– Sendo assim, eu posso lhe contar sem que você sinta tanto medo.
Sua Rosa, cheia de dengo – Estar bem. Eu deixo
você contar, mas fique bem pertinho de mim. Se exagerar eu lhe furo, viu?
Seu Cravo – Uma
vez a porta da cozinha se abriu de repente. Então, mesmo tremendo de medo, Dona
Arida precisou ir fechar. A porta batia, no abrir e fechar dos olhos. E, o
vento era mais frio do que de costume. O escuro do quintal era mais negro do
que carvão.
Na casa de Dona Arida, como as demais
do bairro, só existia um banheiro, e esse ficava no quintal. Fazer xixi ou
defecar durante a noite, era proibido. Ninguém se habilitava. Nem o marido da
dona da casa, que por sinal, vivia muito mais no trabalho, de modo que nunca
ninguém do grupo o conheceu.
Bem, enquanto Dona Arida dava o seu
testemunho, embora tivesse neguinho quase borrando nas calças, ninguém ia ao
banheiro, mesmo que o sol não tivesse ainda morrido.
Sua Rosa – Não acredito. Deixe de embromar e
conte logo.
Seu Cravo – Ainda
nem comecei. Acho melhor esperar que Dona Arida comece a falar. Talvez a gente
nem escute. Pelo visto, hoje a reunião vai ser mesmo na cozinha da casa. E eu
já estou com sono.
Sua Rosa – Oxente,
menino feio! Vá, termine logo isso. Eu, hem! Que já se viu?
Seu Cravo – Pois
bem. Naquela noite havia um novo convidado, o filho mais novo de Seu Miro, o
sapateiro, para participar das regalias do sétimo dia. Quando tudo ia
acontecendo como de costume, o rapaz começou a alertar que “com estas coisas
não se brinca”. Avisou uma vez. Mais tarde, avisou pela segunda vez. E
finalmente, um pouco mais adiante, ele se levantou da cadeira, que estava em
torno da mesa, todo transformado. E não se sabe porque, a mesa se elevou
também.
Sua Rosa – Deixe de brincadeira, já estou toda
arrepiada. Pare de inventar história.
Seu Cravo
– E quem lhe disse que estou inventando, conto como ouvi. É certo que no dia
que Dona Arida contou esta história... estava muito escuro, assim como hoje.
Logo a reunião foi na cozinha, e não no jardim. Assim, eu não ouvia muito bem.
Exceto os estalar de dentes dos que estavam em profundo pavor.
Nunca ninguém teve um susto igual. As
histórias de Dona Arida viraram fichinhas. Estava ali, na frente de todos, a
concretude do horror.
Sua Rosa – Você jura?
Seu Cravo
– Só posso lhe dizer que a porta da cozinha se abriu de repente e de lá saíram
corajosos que nunca mais voltaram. E as duras custas, Dona Arida consegui
acalmar o pobre rapaz. Até porque, dos que ficaram, ninguém se movia, estávamos
quase que petrificados.
Sua Rosa – Pare, viu? Acho melhor ouvi Dona
Arida contar as histórias dela. Você estar botando medo em todo mundo aqui no
jardim. Não viu ainda que todos os pés de flores estão encolhidos?
Seu Cravo
– Não sei contar diferente. Como diz Chicó: “só sei que foi assim”. E que mesmo
passados tantos anos, o Negrão (como era conhecido o rapaz) nunca mais voltou a
ser o mesmo. Anda falando sozinho. E as tardes na casa de Dona Arida perderam,
em definitivo, a magia e o encanto. Daí as reuniões ter passado, muito tempo
depois, para a casa do Jardineiro.
Sua Rosa – Oh! Bode velho mentiroso da peste.
Nunca mais lhe peço para contar uma história.
Seu Cravo
– Sei não. Tenho um pressentimento que hoje Dona Arida vai contar esta
história.
Sua Rosa – Deus que nos livre!
Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau
32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.

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