Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO VII


A morte não é para ser vencida

 

Resumo

 

O Jardineiro, figura central da narrativa, conduz um ritual utilizando maracujás em diferentes estágios de maturação. Através dessa ação, ele demonstra a seus seguidores que a morte não é o fim, mas sim uma transformação necessária para a continuidade da vida. A metáfora do maracujá representa o ciclo da vida e da morte: a fruta madura e suculenta simboliza a vida em sua plenitude, enquanto as sementes representam o potencial para novas vidas. A ação de plantar as sementes após consumir a polpa simboliza a aceitação da morte como parte natural do ciclo vital e a esperança na renovação. O texto conecta essa metáfora com a canção "Drão" de Gilberto Gil, reforçando a ideia de que a morte não é o fim, mas sim uma transformação necessária para a continuidade da vida.

 

Palavras-chave: vida, morte, ciclo, transformação, natureza, ritual, maracujá, semente, filosofia, sabedoria, morte como parte da vida, renascimento.

 

O Jardineiro é um ser peculiar. Plantou no jardim fruteiras que oferecem sombras densas aos delicados pés de flores. Dentre elas, destaca-se o maracujazeiro, cujos frutos rendem deliciosos licores e sucos. Seus amigos, sempre atentos à época da colheita, comparecem suplicantes ao Jardim de Todos Nós. Nessa época, o Jardineiro assume a postura de um sábio, com semblante pacífico e conciliador. Antes de distribuir os maracujás, oferece reflexões aos visitantes.

 

Sua Rosa olha para o portão, inquieta, afirma: "É hoje que teremos filosofia. A turma da boca livre já está chegando."

 

Seu Cravo, tentando acalmá-la, responde: "Não se agite. A turma é formada por seres pacíficos. E se não fossem, o suco do maracujá os tornaria."

 

"Sim, sim", concorda Sua Rosa, "mas é a calmaria que me deixa ansiosa. Parecem mais como monges orientais. Um silêncio assustador."

 

"Além do mais", acrescenta Seu Cravo, "beber o silêncio é uma dádiva divina. Escute, alguém dentre eles falou: 'como fazer para vencer a morte'?"

 

"Para nós", responde Seu Rosa, "o Jardineiro representa a vida e a morte. É impossível vencê-lo."

 

Seu CravoPreste atenção ao Jardineiro distribuindo a cada um o fruto do maracujazeiro. Inicialmente receberão um maracujá, recém retirado da árvore, de pele lisa e de cor amarela. Belo, parecendo pronto para o consumo, mas não está. E ficará um tempo sem nada fazer e em silêncio.

 

Sua RosaVocê tinha razão. Mas agora o Jardineiro está distribuindo outra vez e a cada um, um fruto do maracujazeiro. Entretanto, diferente do anterior. Agora é bastante envelhecido. A aparência já não é bela. Ao contrário, tem muitas rugas. Será que ele está ficando louco?

 

Seu Cravo – Não. É o método dele de ensinar e ser visto como um sábio. Veja você mesma e experimente que na mocidade a pele é lisa e bela. Entretanto, no amadurecimento não é mais para a pele que se deve olhar, mas para a delícia da substância que envolve as sementes existentes no interior do maracujá.

 

Sua RosaEntão, deve ser para isso que cada convidado porta uma faca.

 

Seu CravoSim. Ela é essencial no cerimonial, sendo indispensável que cada um tenha a sua. Aí, também, estava a resposta. A morte não é para ser vencida. Ela é uma grande parceira da vida, sem ela não há como novas manifestações desta se apresentem.

 

Sua RosaEstão cortando ao meio os maracujás. Beberão o fabuloso suco, não é?

 

Seu CravoSim, mas não engolirão as sementes. Elas serão levadas para ser plantadas no Jardim de Cada Um. Aí está a resposta à pergunta inicial. A morte não é para ser vencida. Pois, ela é a grande parteira da vida, sem ela não há como novas manifestações desta se apresentem.

 

Sua RosaMenino, menino! Então é isso que se chama Celebração dos Mistérios?

 

Seu CravoExatamente. Ensinar sem usar palavras, mas símbolos. Formar um círculo esotérico e atualizar um mito. O mito que está sendo celebrado, também, pode ser celebrado mediante uma canção. Você já ouviu Drão, do Gilberto Gil?

 

Sua RosaE como poderia de deixar de ouvir, se nas suas folhas, como teclados de um piano, ela se faz presente?

 

“Drão!
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer aquele amor morrer...”

Seu CravoFico feliz em saber que concordamos que, na verdade, a vida nunca se extingue, mas apenas se transforma em novas formas; para isso, é necessário que a forma antiga cesse. Para que uma árvore nasça, é preciso que a semente pereça.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.


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