Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO VIII
É ensinando que se aprende
Resumo
O
texto narra as experiências do Jardineiro em suas visitas ao Sítio Vargem
Grande, onde aprendeu a importância do ensino e da aprendizagem mútua. O relato
se concentra nas interações do Jardineiro com Seu João, o dono do sítio, que
apesar de sua aparente simplicidade, possuía uma sabedoria profunda e um método
de ensino peculiar. Seu João incentivava a participação ativa do Jardineiro nas
conversas, fazendo perguntas e oferecendo respostas, criando assim um ambiente
de aprendizado mútuo. O texto destaca a importância da escuta ativa e da
capacidade de aprender com os outros, mesmo com aqueles que possuem menos
escolaridade formal.
Palavras-chave:
ensino, aprendizagem, sabedoria, natureza, conhecimento, diálogo, troca,
experiência, crescimento pessoal.
Uma
ladeira íngreme ligava a agitada Cidade Grande ao pacato Sítio Vargem Grande, a
pequena propriedade rural do Seu João. Nem fazenda, nem granja, o sítio era um
oásis de tranquilidade, onde a terra fértil produzia uma abundância de
alimentos e as ervas medicinais curavam todos os males. Foi nesse refúgio
bucólico que o Jardineiro costumava ir nos finais de semana, aprendendo a
respeitar a natureza e a encontrar conforto em sua simplicidade.
Ao
se casar, o Jardineiro parou com o hábito, mas a vida urbana nunca o acalmou
por completo. Viúvo, ele se voltou totalmente aos cuidados para com o Jardim de
Todos Nós, um refúgio para a alma. Confiando seus segredos e meditações às
plantas. Assim o Jardineiro cultivava um vínculo profundo com a natureza,
encontrando na terra e nas flores uma sabedoria que nenhum pastor poderia
oferecer.
Sua Rosa – Bom
dia, querido Seu Cravo. O benzinho amanheceu numa boa?
Seu Cravo – Quando
você acorda assim toda carinhosa, alguma coisa quer. Desembucha logo.
Sua
Rosa – Que precipitação! Não quero nada. A não ser que o benzinho me fale sobre
este tal de Sítio Vargem Grande.
Seu Cravo – Eu
lá nunca fui. Tudo que sei ouvi do Jardineiro. Ela me contou que costumava sair
aos domingos pela manhã na direção do sítio do Seu João. E disse que era bom
demais. Que além da boa comida, havia diversão e arte. E que ele levava a
certeza de que seria um dia de muita satisfação e aprendizagem. Na varanda,
como que já esperando por ele, se encontrava o dono do pedaço com um sorriso
largo de contentamento.
A satisfação já começava na descida da
ladeira, esforço mínimo, sol a menos, algumas sombras das árvores, que invadiam
por cima a estrada, mesmo que nem fariam falta se não existissem. Havia em
abundância juventude nas pernas e no coração.
Sua Rosa – Que
exagero é esse?
Seu Cravo – Se
houve exagero, foi dele, não meu. Como ele era muito jovem, acredito que nada
faltava mesmo. As sombras estavam por acréscimo. Ah! Mas, antes de adentrar as
plantações do sítio e se deliciar com uma variedade imensa de frutas frescas –
tiradas na hora do pé – havia a sessão de perguntas. Na varanda, sentado na
cadeira de balanço, Seu João comandava a festa, tal qual um palestrante do
outro mundo.
Sua Rosa – Do outro mundo mesmo. Já que só
conhecemos este que vivemos plantados.
Seu Cravo
– Do outro mundo porque o Seu João raramente saia de casa, do sítio, e, pareceu
ao Jardineiro, que pouco fora à escola. Tudo que sabia havia aprendido por
conta própria, na escuta, nas ondas de rádio-frequência e nas leituras dos
livros que lhe caiam nas mãos. Lia tudo como um menino pleno de curiosidade.
Sua Rosa – Ah! Como eu gostaria de assim
fazer. Não precisaria de adular alguém para me contar.
Seu Cravo
– Ainda bem que você reconhece que todo aquele florido era para atender um seu
interesse.
Sua Rosa – Vai, vai, continua e deixe de
besteira.
Seu Cravo
– Voltando ao que dizia. Para o Seu João já não era época de escuta. Estava
saturado de tantas informações e saber. Era época de jogar fora tudo que sabia.
Distribuir como quem distribui chuvas. Não escolhia terreno para molhar. Embora
elogiasse muito quem sabia ouvir e calar. Era o caso do Jardineiro, que como
disse era muito jovem.
Seu João fazia uma pergunta e antes que
o jovem Jardineiro pudesse pronunciar a primeira palavra, Seu João já estava
dando a resposta, e no final agradecendo por ter aprendido muito com o jovem.
No começo, embora se sentindo
importante como professor de um sábio, estranhava aquele tipo de coisa. Depois
compreendeu melhor, que se aprende muito mais com quem nos permite falar, do
que com quem nos quer ensinar qualquer coisa.
Sua Rosa – Agora compreendi porque o Seu Gravo
é tão tagarela. Hum!!!
Seu Cravo – Vou fazer de conta que nem
ouvi o comentário desta ingrata. Então, continuando para terminar logo.
Disse-me o Jardineiro que podia observar que cada vez que Seu João respondia a
mesma pergunta – que ele mesmo havia formulado em outra oportunidade – o fazia
de uma maneira diferente e mais rica.
Então, para quê melhor? O homem fazia
as perguntas e dava as respostas, nem se incomodava com o silêncio de quem
ouve. Mais tarde, Seu João dava por encerrada a sessão de perguntas e
respostas. E agradecia pelo que ele havia aprendido com o ouvinte e, assim
feliz, se encaminhava para a segunda delícia do dia: a cozinha da casa.
Era hora de tomar café com bolacha
melada na manteiga da terra, tudo feito no sítio. Em verdade, não era hora de
comer, mas de se deliciar. Não havia pressa, nenhuma tarefa a desempenhar que
exigisse trabalho. Lá, na barriga de cada um, haveria ainda de ter um
lugarzinho para acolher o caldo de cana com pão doce, tudo na hora, tudo feito
com amor. E, como é próprio do amor, de graça.
Sua Rosa – Contando assim, até parece que você
esteve lá. Ou nada lhe foi contado, você inventou tudo. Não foi?
Poeta
Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo,
Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do
Rito Adonhiramita.

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