Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO X


Diversidade de visões de mundo

 

Resumo

 

O Jardineiro, em suas reflexões, questiona a natureza da Imensidão e a busca pela verdade absoluta. Ele apresenta diferentes visões de mundo, desde a crença em um Criador até a ideia de um universo em constante transformação. As plantas, em especial a Dona Flor, servem como ouvintes e catalisadoras para essas reflexões profundas. O texto destaca a importância da diversidade de perspectivas e a necessidade de questionar as crenças estabelecidas. A busca pela verdade única é questionada, dando lugar à ideia de que a verdade pode ser múltipla e em constante evolução.   

 

Palavras-chave: diversidade, crenças, realidade, Imensidão, verdade, conhecimento, filosofia, natureza, espiritualidade, questionamento, transformação.

 

O rádio, outra vez, estava ligado e da lá se ouvia: Alguns humanos sabem que onde há vida, também há alma. Há almas no reino vegetal, assim como há almas no reino animal. Há comunicação entre seres do mesmo reino e entre seres de reinos distintos. Portanto, não só o ser humano contempla a Imensidão. Na cultura bíblica há a informação de que o ser humano ao contemplar a Imensidão não se sentiu só. Observando as manifestações da Imensidão o homem se identificou como o filho e se fez um com ela.

 

Sua Rosa, atenta abriu logo o fuxico: Se todas as coisas possuem alma, então a divisão entre os reinos é artificial. Talvez a verdadeira unidade esteja na interconexão de todas as formas de vida. Se as árvores, os animais, as pedras... todos fazem parte de um grande organismo. O que você me diz, Seu Cravo quase amado?

 

Seu Cravo - Acho que você tem razão. A natureza é um labirinto de conexões, onde tudo se influencia mutuamente. E nós, assim como os humanos, somos apenas mais um fio nesse emaranhado.

 

Sua Rosa, em estado de estase: Não é possível! O velhinho concordando com uma rosa em botão?

 

Seu Cravo - Nossos ancestrais sempre souberam disso. Eles conversavam com os vegetais, ouviam os conselhos dos animais, ouviam os gritos dos humanos e sentiam a energia da terra sob seus pés. A natureza sempre será a nossa mãe, nossa professora e nossa guia espiritual.

 

JardineiroDona Flor, bom dia. Não consigo mais dormir pensando em uma coisa: acho que eu sou a Imensidão, mas que ela é muito maior do que eu. Sei que parece loucura, mas é o que sinto.

 

Sua RosaSeu Cravo, escuta só! Ele voltou a se confessar. Parece que hoje vai ser um dia longo. O jardineiro pirou de vez, falando que é a própria Imensidão.

 

Seu Claro, sonolento:  – Hum, hum. "Mais um capítulo da saga do jardineiro místico?"

 

JardineiroEm outra noite, vislumbrei uma ordem cósmica, a qual o Mestre Marçal denominou de Cosmos. Suas palavras ecoam em minha mente: "O cosmos é eterno, enquanto eu sou passageiro. Sou finito em um universo infinito". No entanto, sinto uma profunda conexão com esse cosmos, como se ele habitasse em mim. O mestre costumava dizer: "A dualidade é inerente ao mundo e ao ser humano".

 

Sua Rosa – Está vendo no que deu aquelas visitas do Mestre Marçal? Tirou o sono do Jardineiro. Agora a gente fica aqui sofrendo com a sede.

 

Seu Cravo Relaxa, flor. Quem fala demais, sede sente. Quanto mais rápido ele terminar, mais rápido a gente se refresca.

 

Sua Rosa – Não estou falando por mim, viu? Estou preocupada com você. Já viu as coisas que ele fala e como diz? Pode lhe influenciar e você vai acabar igualzinho.

 

O Jardineiro, desligando o rádio e nem dando bolas para o agitar das flores, voltou ao assunto que o perturbava há vários dias. E se dirigindo à Dona Flor, retornou a confissão – A partir daí fui registrando o que da alma me veio. E da alma, tal qual um oceano, não vem apenas um único peixe. É como se cada onda trouxesse uma nova espécie, um novo vislumbre da Imensidão. E assim tornei-me múltiplo e de variadas crenças. Tenho conversado com alguns amigos mais velhos e tenho assim podido observar que das descobertas iniciais da diversidade dos peixes, cada homem se tornou um pescador, lançando suas redes e capturando apenas aquilo que confirmava suas próprias teorias. De modo que o conhecimento que liberta foi se tornando uma rede que aprisiona. Vozes se fizeram ouvir ao longo da terra, vozes terríveis, proclamando: “eu tenho a verdade, sou filho da verdade”. E assim, a verdade que deveria ser um oceano infinito, se tornou um lago turvo, dividido em pequenas poças, cada uma defendendo sua própria visão.

 

O sol começava a se pôr, Sua Rosa observava o Jardineiro com um sorriso irônico. 'Esse papo todo, é como água que evapora, se perdendo no ar. Ele finge que fala só pra Dona Flor, mas está querendo impressionar todo mundo aqui.'

 

Seu Cravo, sem abrir os olhos, respondeu: 'Menina, não se avexe. O medo é que impede a gente de amar de verdade. Deixe-me dormir, quando a verdade brotar como uma flor, eu estarei aqui para apreciá-la.'

 

Enquanto isso, o Jardineiro, momentaneamente silencioso, parecia conter a respiração, esperando pela resposta da Dona Flor, que por sua vez continuava na mesma posição de escuta.

 

Não se contendo, como sempre, o Jardineiro voltou à prosa. ‘Decorrente do anúncio das existências de várias palavras estruturantes veio a multiplicidade do cosmo. De modo que, ao longo do tempo, o homem, como um artista, pintou em sua mente diversos quadros da Imensidão, cada um com suas próprias cores e formas. E, a cada cosmo pintado, identificou um Verbo, encarnado ou não, como um pincel que traçava os contornos da realidade’.

 

Houve um homem que, contemplando a tela em branco do caos, disse para si e depois para os demais: 'O cosmo não existiu sempre. Antes existiu apenas o vazio, a carência de formas e cores. Então, surgiu o Grande Pintor, que com um gesto grandioso, criou a primeira pincelada, dando origem a tudo o que vemos. Sendo que o homem, para fazer parte dessa obra de arte, deve seguir as instruções do Pintor, obedecendo às leis da composição.'

 

Mas outros viram na mesma tela um oceano infinito, em constante movimento, onde tudo se transforma e nada é permanente. Para eles, o Verbo era a própria mudança, a dança eterna da criação e destruição.

 

Impaciente, Sua Rosa, olhando com compaixão o Jardineiro foi cutucar o Seu Cravo. “Menino, pare de cochilar, suas pétalas estão tocando no chão!”

 

Por sua vez o Jardineiro, olhando para o alto e de braços abertos, continuou a curtir a sua loucura libertadora.

 

Não mais contemplar a Imensidão para dela tirar o conhecimento, mas obedecer a vontade do Criador, cuja palavra é ouvida pelo Profeta. E, assim, doze tribos se fizeram unidas e temidas pelas demais. Impuseram, pela força da fé e das armas, sua lei sobre as vizinhas, erguendo muros invisíveis entre os homens. A fé, que deveria unir, tornou-se uma arma para dividir, cegando os homens para a beleza da diversidade.

 

Outras tribos, também, ouviram o seu próprio profeta, que, com a mesma fé inabalável, ergueu outros muros, outros dogmas. Múltiplos profetas, múltiplas crenças, múltiplos cosmos e nenhuma paz duradoura. A discórdia entre os homens tornou-se a sombra inevitável da fé, um monstro alimentado pela certeza de possuir a única verdade.

 

De outra tribo, contemplando o céu estrelado, o homem se sentiu um átomo perdido em um universo infinito. A cada piscar de estrelas, a cada mudança do vento, ele percebia a sua própria impermanência, a dança incessante da existência. E, nesse turbilhão de transformações, encontrou uma estranha paz. A certeza de que a verdade não era uma estátua de pedra, mas um rio em constante fluxo, moldando e sendo moldado a cada instante.

 

Sua Rosa – Deixe de fingir Seu Cravo manhoso. Eu sei que esteve escutando tudo. Fala logo, o que você me diz de tudo isso?

 

Seu Cravo Todas as visões apresentadas nada mais eram do que fuga da situação concreta da existência, do real: somos únicos a cada instante, mas as mudanças não são necessariamente abruptas, daí a sensação de continuidade.

 

Sua Rosa - Mas e se essa sensação de continuidade for apenas uma ilusão? E se a cada momento estamos renascendo, completamente diferentes?

 

Seu Cravo -  Sim, essa é uma possibilidade interessante. Talvez a vida seja como um rio, em constante fluxo, e nós somos apenas pequenas ondas que se formam e se dissipam. Cada momento é uma nova oportunidade de nos reinventarmos.

 

Sua Rosa -  Então, se tudo muda o tempo todo, por que nos apegamos tanto às nossas ideias fixas, às nossas crenças? Por que temos tanto medo do novo?

 

Seu Cravo - O medo da mudança é natural, faz parte da condição humana. Mas é preciso ter coragem para abraçar o desconhecido, para se permitir experimentar novas sensações e novas formas de ser.

 

Depois de tantos questionamentos, Dona Flor finamente se pronunciou -  E se a verdade não estiver em uma única resposta, mas em um eterno questionamento? E se a felicidade não estiver em encontrar um significado definitivo para a vida, mas em desfrutar da jornada?

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.



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