Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO XI


O não apego ao transitório

 

Resumo

 

Através de suas conversas, os personagens exploram temas como o amor, o medo, a velhice e a impermanência. A rosa e o cravo, personificadas como seres conscientes, discutem a natureza da existência e a importância de aceitar a morte como parte integrante da vida. O texto explora a ideia de que o medo da morte pode levar ao apego excessivo ao presente e à negação da passagem do tempo. O diálogo também reflete sobre a importância de amar a si mesmo, incluindo as próprias sombras e imperfeições. A aceitação da própria finitude é apresentada como um passo fundamental para uma vida mais plena e significativa.

 

Palavras-chave: transitoriedade, morte, aceitação, amor, medo, velhice, impermanência, vida, diálogo, poesia.

 

Amanhã o Jardineiro irá à feira da Grande Cidade. Levará consigo alguns dos pés de flores que foram plantados em jarros. Dos que foram plantados diretamente na terra levará algumas flores, as mais bonitas. Por esta razão há um clima de agitação no Jardim de Todos Nós.

 

Sua RosaAmanhã meu perfume irá viajar. No caminho abençoará os lugares por onde o Jardineiro passar. Depois, ao se apartarem do Jardineiro, minhas flores irão embelezar a casa de quem as quis. Desejo-lhe a mesma sorte.

 

Seu CravoSei, sei. Do contrário você terá que encontrar outro para chatear. Compreendo o seu gentil sentimento. Olhe, menina. Sou idoso, mas não sou velho. Tenho muito vigor e minhas flores são belas. Não tão grandes, admito, mas ainda encantadoras.

 

Sua RosaQuero para você, e depois para mim, o destino da Senhora Dona Flor. Morrer só depois de muito velha. Sem que o Jardineiro se dê o trabalho de levar minha vida.

 

Seu CravoEu, não. Nasci sob o signo de Escorpião. O Jardineiro fará a sua missão até o fim, se depender de mim. Não dependerei da boa vontade dele, dos caprichos ou das conveniências. Sem falar que ele fala cuspindo. E quando termina, a Senhora Dona Flor fica toda melada. E, olhe, não é com mel.

 

Sua RosaDos humanos quero aprender o sentimento de amar na mais profunda e radical maneira, amar o inimigo como a mim mesmo.

 

Seu CravoPercebo que você se refere às palavras do Mestre Marçal. “O amor do Cristo se dá como um chamamento à acolhida da inteireza do outro e de si mesmo. É preciso que eu seja capaz de me amar, para poder amar o diferente, o estranho, o próximo... como se queira denominar o outro”.

 

Outro dia ele esteve a falar de um famoso terapeuta francês destacando que “amar a si mesmo, não é apenas acolher o que existe de bom e útil em si mesmo - o lado de luz. É preciso, também, acolher - para poder fazer a passagem - ao que existe em nós que não apreciamos. Acolher as nossas limitações e fraquezas - o lado da sombra”.

 

Sua RosaSim, querido. Para um velhinho até que você tem boa memória. Ah! Velhinho não, idoso. Gostaria de destacar que “para ultrapassar a sombra, o nosso deserto, é necessário olhá-la de frente, não a esconder. Em verdade, somos fortes e somos fracos. Somos heróis e somos covardes. Somos presentes e somos omissos. Somos sadios e somos doentes. Somos masculinos - vigor - e somos femininos – ternura”. O mundo é tudo isso, e não fazemos apenas parte do mundo, somos uma célula do mundo que contém em escala menor tudo que o mundo contém em grande escala. E o mundo não é só humano, é também vegetal.

 

Seu CravoInfelizmente os humanos não nos escutam. Aliás, não escutam nem a si mesmo. Pois muitas vezes dizem uma coisa e fazem outra. Algumas vezes até o contrário do que afirmam. 

 

Sua RosaSim, benzinho. Lembro-me que o Mestre Marçal advertiu ao Jardineiro, que “amar o nosso inimigo não é apenas um convite a perdoar a quem nos faz o mal; mas, em primeiro lugar, acolher o que em nós mesmos não aceitamos. Desde um fio de cabelo branco, que nos informa a proximidade da páscoa, até uma fraqueza moral”.

 

Seu CravoO Jardineiro tem uma mania terrível: tudo que escuta, quer levar para o lado pessoal. Como se tivesse sido ofendido pessoalmente. Quando, até nós que somos vegetais já percebemos, o Mestre Marçal fala no modo genérico, se reportando aos ensinamentos do Ser que ele afirma ser o único que merece o título de Mestre. E que aprendeu com um apóstolo deste verdadeiro Mestre, o único que ele reconhece, que o contrário do amor não é o ódio, mas o medo. Assim, por exemplo, a não aceitação da idade adulta, tolo apego à eterna juventude, é muito mais devido ao medo do que ela provoca e não permite mais, do que ao ódio à velhice. Amar a idade adulta é aceitar não só as vantagens, mas as limitações que ela nos traz. Não é assim, amorzinho?

 

Sua RosaComo esquecer, se você não perde uma oportunidade de repetir que “o contrário do amor não é o ódio, mas o medo”? Pois fique logo sabendo que eu não tenho medo de amar. Tanto é assim que amo um certo velho pé de flores. Ouvindo com atenção, mas reservando-me o direito de concordar apenas com o que me convém.

 

Seu CravoE baseada neste suposto direito, passa o tempo todo a implicar com o pobre coitado. Que nem dormir tem direito. E como estamos subjacentemente falando da morte, é bom lembrar: tudo o que é composto se decompõe com o tempo. Assim, não me apego ao transitório. E recomento que você não se apegue também. Querer uma vida longa pode apenas estar jogando para o futuro o que deve ser feito no presente.

 

Sua RosaMenino! Sou nova, mas tenho juízo e memória fresquinha. Já posso antecipar que você irá dizer que deixar de viver o que se apresenta no momento “pode implicar a troca da oportunidade de viver verdadeiramente pela grande ilusão de que nunca irá morrer”. E estou sabendo que no final, tudo isso apenas pode se tornar uma fonte de sofrimento. No caso, ter uma idade avançada, sendo melada pelos cuspes do Jardineiro.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog