Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO XII


Diante da morte a discursão é inútil

 

Resumo

 

A narrativa, repleta de simbolismo, explora temas como a finitude da vida, a aceitação da morte e a importância de viver o presente. A rosa e o cravo debatem sobre a inevitabilidade da morte e a necessidade de se preparar para ela. A chegada do jardineiro, anunciando a disseminação de um novo fungo, intensifica a reflexão. O texto sugere que o apego à vida e o medo da morte podem gerar sofrimento desnecessário. A rosa, inicialmente preocupada com sua própria beleza e futuro, gradualmente compreende a necessidade de aceitar a vontade da natureza. Já o cravo, com suas raízes profundas, demonstra uma aceitação mais serena da finitude, enfatizando a importância de viver o presente sem apegos excessivos.

 

Palavras-chave: morte, vida, aceitação, transitoriedade, natureza, jardim, fungo, medo, esperança, serenidade.

 

O dia amanheceu agitado no jardim. Um boato corria de que um novo fungo estava aterrorizando as plantações naquele ano. Todos observavam atentamente o Jardineiro, mas ninguém ousava perguntar-lhe se os rumores eram verdadeiros. A Senhora Dona Flor permanecia em silêncio, como se nada de novo estivesse prestes a acontecer. Tendo vivido muitas tempestades, ela parecia saber quase tudo.

 

Sua Rosa Acorda, preguiçoso! Esta agitação toda e você fazendo de conta que nada lhe diz respeito. Saiba que vem aí um fungo novo. Tão mortal que até o nome dele ninguém ousa falar. Tão poderoso que já foi apelidado de Coroa Fungo. Isso porque ele tem uma preferência pelas plantas mais velhas, assim como você. E aí? Quem cuidará de mim então?

 

Seu CravoRelaxa, minha flor. Não adianta vim com estas suas provocações. Sou idoso, aceito, mas não sou velho. Viu, gracinha!

 

Sua RosaCaia na real. Provocando nada. Você é que gosta de viver no mundo da lua, como se poeta fosse. Não tenho nada a ver com a preferência do Coroa Fungo. Pois, para o seu conhecimento, dizem que as folhas das plantas infectadas ficam pretas e caem como se lágrimas fossem. E o pior é que se espalha rápido, como um incêndio! Estão dizendo que o silêncio do Jardineiro é devido ao fato dele não saber o que fazer

 

Seu CravoPenso que você é que não sabe o que fazer com tanto tempo livre para usufruir. Aí fica dando ouvido as fofoqueiras do jardim. O Tempo sabe de tudo. Acolhe problemas e apresenta soluções.

 

Sua RosaAh! É assim. Seu ingrato! Fico me preocupando e me ocupando com você. E o que ganho? Só incompreensão. Pois não vou lhe contar o que fiquei sabendo, algo tão terrível que só é contado na garantia do mais absoluto sigilo. Ninguém pode revelar a um, digamos, idoso.

 

Seu CravoVá logo, fale e deixe de rodeios. Sua língua está coçando para revelar.

 

Sua RosaMenino! Dizem que o Coroa Fungo até é visto como uma benção. Vai fazer uma limpeza nas plantações e nos jardins. Os fracos serão eliminados sem que o Jardineiro se sinta mal em vê-los partir. E você, Menino Velho, fique atento. Viu que o Jardineiro parou de se confessar com a Senhora Dona Flor?

 

Seu CravoNão se preocupe tanto e deixe de ver fantasmas. Não tem fungo que resista ao cheiro de bosta de cavalo. Em especial quando ela é queimada, produzindo fumaça.

 

Sua RosaTire o seu cavalinho da chuva. Nada de fumaça malcheirosa competindo com o meu delicado perfume. Basta suportar o "perfume" de um certo cravo velho.

 

Seu CravoEste é um problema de fácil solução. Você não está plantada no chão, mas em um jarro. Assim, você pode ser movida sem nenhum desgaste. Não se preocupe comigo, gosto da sua presença juvenil. Mas não estamos presos por raízes. Nem estou pensando em ser tido como um inútil cravo idoso ocupando espaços destinados aos novos.

 

Sua RosaBobinho, que tipo de adubo estragado te intoxicou? Nós estamos prestes a nos transferir para a Estufa Real. Mas não fique triste e nem morra de saudade. Mandarei um pouco do meu perfume para te visitar. Se cuida, viu?

 

Seu CravoNão me importo. Seja bem feliz. Minha fortaleza foi construída pelo enfrentamento das intempéries. Com minhas raízes aprofundadas em terra firme, nada terei a temer. Se e quando você voltar, me encontrará no mesmo lugar.

 

Sua RosaAcho que não! Nem alimente vã esperança. Certamente serei levada à feira da Cidade Grande e, lá chegando, como sou muito bela, serei contemplada com um Jardim de Cada Um, só meu.

 

Neste momento da conversa aparece o JardineiroSenhora Dona Flor, vozes vindas do Oriente informam que uma grande tragédia ocorre nos jardins de lá. Um fungo novo, ainda sem nome, está resistindo a todos os contra-ataques. Só nos resta aos jardineiros esperar pelo desenvolvimento de um novo inseticida.

 

Sua RosaEstá vendo aí, benzinho? Era fofoca? Diz agora, “raízes aprofundadas”, que eu não te avisei.

 

JardineiroO novo fungo é terrível, especialmente para as plantas mais idosas. Assim, terei de arrancar você deste chão onde vive e colocá-la em um jarro. O mesmo será necessário fazer com as demais plantas idosas. O problema é que não tenho jarros suficientes nem lugares na Estufa Real para todas as plantas, velhas e novas.

 

Sua RosaIh, benzinho, foi pior! E agora?

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

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