Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO XIV


A Fonte da inspiração morando ao lado

 

Resumo

 

Ambientado em um jardim, o texto aprofunda a reflexão sobre a vaidade, a beleza, o amor e a aceitação da finitude. A rosa, representa a beleza efêmera e a busca por admiração, enquanto o cravo simboliza a sabedoria, a aceitação da passagem do tempo e a beleza interior. O diálogo entre os dois revela a complexidade das relações humanas, marcadas pela vaidade, pelo desejo de reconhecimento e pela busca por amor.

 

Palavras-chave: beleza, vaidade, amor, aceitação, natureza, vida, morte, transitoriedade, relacionamento, diálogo.

 

As águas do rio recuaram, deixando a margem exposta. Algumas águas se foram levando muitas esperanças e bens preciosos: casas, plantações e sonhos. Enquanto o rio agonizava, o jardim florescia, um oásis em meio à seca. O Jardineiro voltou a receber visitas dos velhos amigos. E todos conheciam as regras: as flores, tentadoras em sua beleza, convidavam ao toque, mas suas raízes estavam firmemente ancoradas à terra. Se alguém insistisse em levar uma, teria que arrancar a planta inteira e pagar o preço de mercado. Amigos, amigos, diziam. Mas quando se tratava de um tesouro floral, a amizade se diluía como a água do rio.

 

Sua RosaHoje nem vou abrir minhas pétalas. A casa começou a ficar cheia de visitantes. Mas, na hora do vamos ver, não deixam nada. Alguns chegam até a babar saliva em cima de mim. Que nojeira!

 

Seu CravoNévoa, névoa. Tudo é névoa. Deixe cada um existir conforme a sua natureza. Ó! Bela Rosa.

 

Sua RosaPara você é fácil, até mesmo indiferente. Quem vai querer cheirar um cravo velho, que só cheira a cemitério? Não vieram aqui para lhe fazer este favor, uma homenagem quase póstuma. Vieram para contemplar a minha elegância, minha formosura. E entrar em êxtase ao sentir a fragrância do meu perfume embriagador.

 

Seu Cravo – Se é assim. Abra as suas pétalas à presença de tão apaixonados apreciadores.

 

Sua RosaE você, querido? Acordou na felicidade, sem querer despertar e nem os olhos abrir?

 

Seu CravoAh! Sim. Não deveria lhe confessar. Mas, como não acordar assim, quem passou a noite toda sentindo o perfume de uma certa rosa? Uma dádiva da natureza.

 

Sua RosaE foi? Pensei que a sua alergia não lhe permitiria enxergar que a beleza mora ao lado. Bem ao seu lado.

 

Seu CravoFoi, mas a certa rosa não é a minha vizinha, viu?

 

Sua RosaVou fazer de conta que nem ouvi isso. Oh! Seu Cravo doido e velho, existiria uma rosa mais bela do que Sua Rosa? Nem precisa dizer que não. Afinal, você tem sonho ou pesadelo? Dormir e não sonhar comigo só poderia ser um pesadelo.

 

Seu CravoVocê é Sua Rosa, não minha. Já se deu conta da imensidão que é este Jardim de Todos Nós?

 

Sua RosaToda a Imensidão habita em mim. Assim é hoje, igual ao que foi ontem. Tudo voa, mas eu não quero partir. Quero permanecer nos seus sonhos inalcançáveis. Quero ver você acordado e sorrindo à toa. Besta!

 

Seu CravoEstá bem, confesso. Mas, metade. Acordei com o gosto do teu beijo na alma. Acordei com o teu cheiro na minha pele, na minha mão. Acordei, com um sorriso nos lábios, explodindo o coração.

 

Sua RosaE foi, só metade? O que faltou?

 

Seu Cravo – É que você passa o dia todo tagarelando. Então, quando chega à noite, quase não consegue se manter erguida. Aproveita a primeira brisa e se joga toda para cima de mim. Aí fica como um defunto, não se mexe. Só sei que não morreu porque você ronca a noite inteira.

 

Sua RosaNão se atreva a inventar uma historinha desta, outra vez. Tudo ilusão. Transferência de desejos para o campo da imaginação. Sou forte, bela e inatingível.

 

Seu CravoAinda bem que o Jardineiro abriu a janela, abriu a porta, tudo em profunda calma. A rua vazia, cidade dormindo, lâmpada apagada. Tudo, tudo conspirando pela noite sonhada. Mas, isso foi ontem, viu? Agora, se cuide! Os amigos do Jardineiro estão se aproximando.

 

Sua RosaE como deixar de ver este desmantelo? Eca! Desejo um vento forte que faça flutuar o meu jarro e me leve para o Jardim de Cada Um. Lá serei a rainha, só a decorar um ambiente harmonioso e seguro. Nada de cheira-cheira, nada de um cravo velho dorminhoco na hora errada e falador quando desejo dormir. Um dia voarei para o paraíso.

 

Seu CravoUm dia descobrirás que o paraíso é aqui e agora. Que o instante que se tem para viver é agora. O presente é o que se tem de real. Fora dele tu só encontrarás desejos ou recordações fragmentadas de instantes que não tinhas a consciência plena do que se passava.

 

Sua RosaComeçou o blábláblá. Te enxerga bichinho feio. Não é sobre você que caem os cuspes dos que dissertam sobre a minha beleza, meu frescor, minha juventude, minha delicadeza..., meu perfume. 

 

Seu CravoUm dia sentirão os seus espinhos. Por enquanto, apenas eu e o Jardineiro. E os que já os conhecem não mantêm a devida e prudente distância. Sabes que sei porque não se aproximam de mim. Respeitam-me por saberem que serei o último perfume que os acompanharam ao coração da Terra.

 

Sua RosaSim, sim. E lhe resta outra coisa de consolo? A não ser se conformar e enaltecer este seu último papel? Rei das funerárias. Não precisa me interromper. Aqui você também tem um importante papel, importantíssimo para enaltecer a verdade. Servir de contraste, e assim, focar os olhares para o que de fato interessa: eu.

 

Seu CravoAi, ai, eu mereço? Um planeta tão grande e foi cair ao meu lado, logo ao meu lado, a materialização da Vaidade. Faço fé para que o Jardineiro te leve à mesa, e assim nenhum pingo de “chuva” caia sobre mim e nem nas demais flores deste nosso jardim.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

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