Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO XV
A consciência da singularidade
Resumo
Após
um evento que causa perturbação no jardim, a rosa e o cravo se envolvem em um
diálogo poético que explora temas como a individualidade, a interdependência e
a busca por significado. A rosa, inicialmente vaidosa e egocêntrica, começa a
perceber a importância de sua singularidade e do seu impacto sobre os outros. O
cravo, por sua vez, demonstra uma aceitação serena de sua própria natureza e da
natureza da rosa. Juntos, eles descobrem a beleza da interdependência e a
importância de viver o presente.
Palavras-chave:
singularidade, presente, futuro, identidade, individualidade, poesia, interdependência,
relacionamento.
Os
visitantes se foram deixando para trás piolas, cinzas e o mal cheiro de
cigarros queimados. Em um cantinho do jardim, os pés de fumo tiveram um dia de
terror. Assistiram ao futuro das suas folhas. Uma visão inversa daquela que os
astrônomos têm ao receberem imagens das estrelas. Não é à toa que os humanos
preferem viver voltados ao passado. O futuro é muito assustador.
Sua Rosa – Desse
jeito vou adquirir a sua alergia.
Seu Cravo – É,
né? Mas ontem você estava fascinada pelas formas que as fumaças adquiriam ao
saírem dos vulcões humanos.
Sua Rosa – Não
vem, que não tem. Hoje, estou de boa. Logo, logo, o Jardineiro deixará tudo
limpinho. Ainda bem que ele tem alergia às cinzas. E nem venha com réplicas,
tréplicas. Enfim, com as suas implicâncias de idoso. Está vendo como estou de
boa? Nem lhe chamei do que você realmente é.
Seu Cravo – Ah-ah,
eu também estou de boa. Não, pelas suas razões. Sim, porque estou enfadado. Tão
enfadado que nem irei abrir as pétalas das minhas novas flores.
Sua Rosa – Menino,
se mexa, balance seu corpo. Folhas secas cairão e você terá uma aparência
rejuvenescida. Quem sabe, eu poderei até tolerar melhor a sua presença. Faço
até uma poesia em parceria com você. Aliás, você se parece de fato com um
poeta.
Seu Cravo
– Ah-ah, não adiante provocar. Eu de fato estou numa boa. Mas, se você quer
cantar, é só replicar.
É precioso que tu mates a esperança
Que habita o teu coração
Não espere por mim
Eu já estou aqui
Na tua frente.
Sua Rosa – Pia mesmo. Se amostrando, é? Pois está
bem. Vamos lá.
É precioso que eu mate a esperança
Que habita o meu coração
Não espero por ti
Tu já estás aqui
Na minha mente.
Seu Cravo
–
É precioso que tu mates a esperança
Que habita o teu coração
Bebas a vida plenamente
Do jeito que tu és
Nada diferente.
Sua Rosa –
É precioso que eu mate a esperança
Que habita o meu coração
Poderemos nos aceitar
E a esperança morrer
Para sempre.
Seu Cravo
–
Não esperes, não espero
Matemos a esperança, matemos a
esperança
Somos o que somos, eternamente.
Sua Rosa – Muito
bem, rapazinho. Espero que a sua alma alcance a consciência do nosso canto. Sou
uma rosa. Não, não sou uma rosa. Eu sou a Sua Rosa. E você é o que é, o Seu
Gravo.
Seu Cravo – Compreendemos
que você não irá mudar apenas para me agradar. Afinal, não há como mudar o que
você é essencialmente. Nasceu princesa e vive como tal. Nasceu estrela e vive
iluminando o Jardim de Todos Nós e, até mesmo, suavemente, penetrando o Jardim
de Cada Um.
Sua
Rosa – Pois é, benzinho. Notou que os pés
de fumo espantaram a tristeza e o horror quando se voltaram para contemplar a
minha presença? Eu sou assim, capaz de me fazer presente na existência de
qualquer um. Aí, querido, os outros pés de flores e as demais plantas se voltam
para os seus próprios presentes, retirando assim suas existências de um futuro
que ainda não existe.
Seu Cravo – E
mesmo sem existir, como parecia, tal o 'futuro' já produzia sofrimentos aos pés
de fumo. Todavia, quando resolvemos cantar juntos, fluímos pelo mesmo leito,
aumentando a força e a beleza da natureza, e a divergência entre nós
desapareceu naturalmente.
Sua Rosa – Estou
entendendo, papagaio velho, a sua intenção. Roda, roda e termina na velha
cantiga de grilo: “entre o Seu Cravo e Sua Rosa existe o terceiro incluído, o
amor”. Vá se enganando à toa. Depois, não se faça de vítima, viu?
Seu Cravo – Aí,
aí... o bom dura tão pouco.
Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo
e Aceito
e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.

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