Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO XVI
A partida de Sua Rosa
Resumo
Seu Cravo, personagem
central deste capítulo, reflete sobre a ausência de Sua Rosa, que foi levada
para a feira. Através de poesias, ele expressa seus sentimentos de saudade,
medo e incerteza sobre o futuro da amada. As imagens da viagem, da feira e do
retorno do jardineiro evocam a fragilidade da vida e a inevitabilidade da
perda. O cravo questiona a natureza da saudade, a possibilidade de reencontro e
o significado da vida diante da morte. A poesia serve como um veículo para
expressar as emoções complexas e contraditórias que acompanham a perda de
alguém amado.
Palavras-chave:
saudade, perda, amor, vida, morte, poesia, fragilidade, incerteza, jardim,
flores.
O
final da tarde se aproximava. A Terra, em seu giro constante, cria a ilusão da
morte diária do Sol. Para os vivos, o sol se oculta a cada dia. A luz e o calor
desapareciam aos poucos do jardim. O jardineiro acendia uma vela. Para quê
acendia a vela, não se sabia. Em sua pequena casa, a escuridão não era
problema. As estrelas, através da janela, iluminavam suavemente seu leito.
Amanhã seria dia de feira na Cidade Grande. Para facilitar o seu trabalho, o
Jardineiro recolheu alguns pés de flores, dentre eles a Sua Rosa. E assim
sendo, o Seu Cravo poderia dormir tranquilo. Entretanto, os seus pensamentos se
tornavam fonte de tormentos. Não conseguindo dormir, ficava implicando com uma
canção que não lhe saía da memória.
Seu Cravo – Mas
só o que me faltava mesmo. Sentir falta daquela implicante! Fico vendo coisas
nas sombras dançantes, projetadas pela luz da vela.
“Vejo
o teu vulto
Miragem
Na
fragmentada memória
Entre
um vacilo e outro
Busco
o abraço nas sombras”.
Seu
Cravo – Ah, ah, estou ficando idoso, isso
eu sei. Não sabia que também estava ficando doido. Não faz sentido sentir
saudade e outros afetos malucos. Afinal, ela voltará. Apego-me a essa ideia.
Pois se é ruim com ela, é pior sem ela. E se ela não voltar? O que cantarei?
“Aonde
estais, agora?
Num
trem doido
Nos
espinhos das flores
Da
planta sem nome”.
Seu
Cravo – Por mais cuidadoso que seja o
Jardineiro, eu sei que no transporte todos
os pés de flores vão dentro de caixotes, quase que amontoados. Os
espinhos de um machucam o outro.
E os espinhos do outro machucam o um.
“Aonde
estais, agora?
Nas
asas que voam
Nos
bicos que cantam
Os
sonhos em vão”.
Seu Cravo – Também
já fui levado nestas viagens à Cidade Grande. Se tive sorte ou azar, não sei,
de coincidir em dia de feira ruim. Aquela
feira de flores, tão colorida e perfumada, se transformava em um pesadelo.
Quase nada foi vendido e neste tipo de feira, o Jardineiro voltava irritado e
disperso. Jogava a carroça para frente, sem se importar com os buracos da
estrada. As pétalas das rosas se
despedaçavam, as violetas murchavam, e eu, com meus espinhos, tentava me
proteger das pancadas. Aí é que o machucado se intensificava. Ele ficava
tão irritado que nem tirava a gente dos caixotes, quando chegava em casa.
Deixava tudo para o dia seguinte.
“Vejo
o teu vulto
Miragem
Na
fragmentada memória
Entre
um vacilo e outro
Busco
o abraço nas sombras”.
Seu Cravo – No
dia seguinte, o Jardineiro desloca sua
frustração e coloca a culpa em quem não teve nada com o fracasso
resultante de feira ruim. Olha com desprezo para os pés de flores mais murchos
e os retira dos vasos de barro. Alguns ele joga no lixo, outros serão mais uma
vez plantados, agora, diretamente na terra. Este foi o meu destino. Não mais me levou à feira, só os meus
cravos. E com eles, o meu perfume para contribuir na composição de velórios.
Veja a ironia da vida, eu que sempre fui símbolo de paixão, agora seria
associado à morte.
“Ah!
Aonde estais, agora?
Só
sei, que não sei
Mesmo
assim escuto
As
brutas palavras
Na
tua voz carinho
A
ilusão que se foi”.
Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau
32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

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