Eu, Você e a Imensidão - CAPÍTULO XVIII


A Presepada chega ao jardim

 

Resumo

 

A rosa, inicialmente indignada com o desperdício das pétalas, passa a refletir sobre o ciclo da vida e da morte, reconhecendo a importância de ambas para a natureza. O cravo, por sua vez, utiliza a poesia para expressar seus sentimentos complexos em relação à rosa, oscilando entre a admiração e a irritação. A Presepada serve como um catalisador para a reflexão sobre a beleza, a efemeridade da vida e a importância de celebrar os momentos presentes. A narrativa explora a dualidade da natureza humana, que se manifesta tanto na alegria das celebrações quanto na aceitação da morte.

 

Palavras-chave: Presepada, vida, morte, beleza, celebração, natureza, poesia, relacionamento, dualidade.

 

Há anos que o carnaval na Cidade Grande deixou de existir. Então foi inventado um substitutivo, o Carnaval Fora de Época ou a Presepada, como é mais conhecido. Inventaram até abrir a Presepada com uma chuva de pétalas. Um banho perfumado envolveu os foliões. Um espetáculo à parte e, como tal, muito polêmico. Há quem ache que é um desperdício à toa. O Jardineiro fica é feliz. Vai faturar um extra, fora da feira da cidade. No Jardim de Todos Nós, não há consenso amplo sobre a Presepada.

 

Sua RosaQuem já se viu uma coisa dessa? Não dá para acreditar. Minhas preciosas, belas e perfumadas pétalas sendo pisoteadas por um bando de malucos.

 

Seu CravoMelhor do que ser flor de cemitério, não?

 

Sua RosaAh! Aí você terá uma missão nobre. Acompanha o humano de volta à mãe terra de onde, originalmente, veio e da qual sempre se alimentou. Aliás, todos nós.

 

Seu CravoSim. Os humanos e todos nós.

 

Sua RosaOs seus cravos e seu perfume participarão do nobre ritual do velório, imprescindível no desapego dos familiares ao corpo sem vida.

 

Seu CravoSe é assim, devo lhe lembrar que a Presepada é uma celebração da vida. Foliões alegres dançando, cantando e perfumados pelas suas pétalas.

 

Sua RosaAh! Isso é mesmo. Todavia, sem a morte não há nova vida. Portanto, participamos de duas celebrações que não se excluem, mas se complementam.

 

Seu CravoComo hoje é um destes raros dias que a fala de um complementa a do outro, que tal poetizarmos?

 

Sua RosaO senhor é apressadinho, e muito ansioso para o meu gosto. Deus me livre de você se acostumar com essa tola ideia que formamos um par. Só estamos, neste breve momento, próximos devido à teimosia de alguém. Não se faça de doido, de quem não viu, não ouvi e nem sentiu.

 

Seu CravoSe assim é. Canto eu sozinho. E não pense que me refiro a você. Pode até ser que Sua Rosa seja a musa inspiradora. Assim, como uma fotografia, registro de um tempo que se foi. Apenas uma referência que atrai as palavras. 

 

Sua RosaPois que espere a próxima viagem. Na minha ausência você pode sonhar, cantar e até chorar. E, o que é melhor, sozinho. Sem me incomodar com o seu blá, blá, blá.

 

Seu CravoMenina, vê se assume o seu corpo. Voltou feinha, e ainda está um pouco machucada, da Cidade Grande no dia da feira boa.

 

Sua Rosa – Inveja mata, viu? Sou e enquanto aqui estiver continuarei, a mais bela deste jardim. Mas, vá lá cante. Mas, saiba que não estarei ouvindo, darei ouvidos às meninas.

 

Seu Cravo

 

“Tendo cumprido a minha missão

Você é presença que fica como uma dádiva divina

Você toca música como os pássaros e sorrir feito criança

Você indica leituras maravilhosas e sorrir feito adulta

Você abre janela suavemente

E fecha com a força de um vulcão ativo

E tudo pode acontecer em um abrir e fechar de olhos”.

 

Sua Rosa – Inclusive me fazer rir.

 

Seu Cravo

 

“De repente, mais do que de repente

Como diz o poeta, tudo no mar fica parado

E, então, o meu barco que é movido

Ao seu hálito fica à deriva.

Preciso do socorro dos poetas para revelar

Um pouco de você

Preciso do socorro dos amantes para aceitar

Você como você é”.

 

Sua RosaAh, ah. Vai fazer outra coisa, menino feio. Pare de só pensar em mim.

 

Poeta Hiran de Melo – Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.

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