Narro como sinto – Capítulo 15

Almas Mortas
A
procissão vagueia em busca do incerto. Alguns, revestidos de paramentos
sacerdotais, elevam o coro como para indicar que sabem a que lugar o caminho
leva. Mas não sabem. Outros elevam imagens e relíquias como forma de dar
testemunho de sua crença. Estes também não sabem a que lugar a fé conduz.
Ao
longo do caminho, dedicam-se a atender aos necessitados que os procuram,
oferecendo auxílio e conforto. Com esses atos de bondade, esperam conquistar a
gratidão tanto dos mais simples quanto dos mais influentes. No entanto, a
incerteza paira sobre a recompensa por suas ações.
O
armário da mente, um calabouço de memórias, aprisiona a dor em um canto escuro.
Nele, residem os fantasmas de erros hipotéticos, talvez frutos de uma
imaginação fértil. Quando as possibilidades se esgotam e não há outra escolha,
a culpa é um fardo inútil. É nos recessos mais profundos desse armário que
encontramos as raízes da culpa, em decisões impulsivas e passadas.
A
tentação de transferir a culpa para outro é uma ilusão passageira, uma
tentativa vã de justificar o injustificável. Essa saída, inútil, logo é
abandonada diante da iminente necessidade de expiação. A alma, atormentada pelo
peso do pecado, busca alívio em um holocausto interior, consumindo-se em um
fogo purificador. A fila de penitentes, em sua busca desesperada por salvação,
oferece um espetáculo trágico da condição humana.
Gritos
de alegria contagiante elevam-se de outra via. Foliões, em busca de um breve
descanso das suas obrigações, mergulham na exuberante folia do carnaval. Gritos
que se elevam como preces, pedindo apenas um momento de pura felicidade.
Samba,
frevo, marcha e muitos outros ritmos vibrantes, de diversos matizes culturais,
unem-se em uma só vontade: a felicidade do momento. As cores exuberantes das
fantasias e a energia contagiante da multidão criam um ambiente mágico, onde
todos são livres para celebrar a vida.
Dizem
que nesta via segue outra procissão, a das almas perdidas, em busca de um
refúgio da efemeridade do carnaval. Ninguém sabe ao certo o destino dessa
peregrinação. A única certeza é o cansaço que sentiremos no corpo quando os
dias de cinzas chegarem, anunciando o fim da folia e o início de um novo ciclo.
Nestes novos dias, alguns foliões, agora mais maduros, buscarão consolo e
redenção nos rituais religiosos, assim como aqueles que foram martirizados por
sua fé, em busca de um sentido mais profundo para a vida.
Há
uma esperança de que tudo enfim
esteja certo. Essa esperança reside no radiante
sorriso do sacerdote, que celebra a fé com fervor. Ela se confirma quando vemos um sorriso de
criança nos semblantes das almas em comunhão.
Hiran de Melo
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