Narro como sinto – Capítulo 14

As fortalezas privadas
Na
cidade em que nasci havia uma casa de muros altos e janelas com grades, um
lugar triste. Era a única com aquele aspecto imponente e sombrio. Chamava-se
cadeia pública e era um lugar que ninguém desejava visitar, nem mesmo para
encontrar um parente ou amigo.
Nós
vivíamos em casas com muros baixos, quando havia. Era um tempo em que a porta
da casa era fechada apenas parcialmente, por causa dos animais que vagavam
pelas ruas. Essa precaução era tomada para impedir que os animais entrassem.
E
as janelas? Permanecem quase sempre abertas, voltadas para a rua. Somente à
noite, quando todos se recolhiam para dormir, portas e janelas eram de fato
fechadas, movidos pelo temor das almas penadas.
Quem
não vivenciou essa época pode duvidar de minhas palavras. Contudo, até hoje, o
descrente pode visitar Lucena, na Paraíba, durante o período de férias e
constatar a veracidade de meu relato.
Essa
é a realidade comum nas cidades litorâneas do nosso estado, e em Lucena não é
diferente. Aliás, a segurança é ainda mais evidente: muitos moradores dormem
nas varandas, quando as há, sem a necessidade de trancar portas ou janelas.
Afinal, o calor intenso dificulta o sono em ambientes fechados.
Talvez
você imagine que, nesse cenário, a presença policial seja constante. Engana-se.
Ao contrário, a figura do policial é rara nas ruas. "Mas como isso é possível?", você pode se perguntar.
Aguarde um pouco, pois explicarei essa aparente contradição. Antes, porém,
preciso descrever como minha cidade se transformou, e acredito que a sua tenha
passado por mudanças semelhantes.
Atualmente,
a realidade é bem diferente. A antiga cadeia deixou de ser um local isolado e
se transformou em um modelo arquitetônico para as residências. As casas, agora,
são verdadeiras fortalezas, onde as pessoas se sentem prisioneiras, mesmo que
voluntariamente. A segurança se tornou um bem pago, e a privacidade, um luxo
cada vez mais raro.
Após
dois assaltos, senti-me compelido a reforçar ainda mais a segurança da minha
casa. Além da cerca elétrica, instalei um sistema de câmeras que monitora todos
os ambientes 24 horas por dia.
Inicialmente,
instalei duas câmeras voltadas para a rua, com o objetivo de monitorar a área
em frente à minha casa pelo celular. Assim, posso verificar se é seguro
estacionar antes de chegar. Ao perceber qualquer movimento suspeito, finjo não
conhecer o local e aviso os moradores da casa sobre a situação. O mesmo
procedimento é adotado ao sair da garagem.
Vivemos
em um estado de alerta constante, saindo de casa apenas para atender a
necessidades básicas. Se pudéssemos, permaneceríamos confinados em nossas
fortalezas, onde a sensação de segurança, embora ilusória, é maior. Afinal, a
probabilidade de sermos vítimas de violência é significativamente menor dentro
de casa.
É
surpreendente como nos acostumamos a uma realidade tão diferente, na qual a
prisão domiciliar se tornou comum e a segurança privada é um item
indispensável. Essa nova realidade, em que pagamos para viver em nossas próprias
casas, era inimaginável há poucos anos.
O
direito ao porte de armas é um tema controverso, especialmente em um contexto
de crescente insegurança. Embora a autodefesa seja um direito fundamental, a
proliferação de armas de fogo pode gerar mais violência do que segurança.
A
legislação brasileira, ao restringir o acesso a armas, busca encontrar um
equilíbrio entre o direito individual e o interesse coletivo. No entanto, é
fundamental que o Estado garanta a segurança da população por meio de políticas
públicas eficazes, como o investimento em educação, saúde e segurança pública.
Aqueles
que cresceram em um ambiente urbano mais seguro talvez não percebam a magnitude
dessa mudança. Mas para aqueles que tiveram a liberdade de brincar nas ruas, a
atual realidade é dolorosa. A impossibilidade de ver os filhos explorando o
mundo livremente, como faziam em sua infância, causa uma profunda tristeza.
"E qual a razão para essa
transformação?", você pode questionar. Embora não possua dados
científicos para embasar minha resposta, arrisco uma hipótese.
Os
que moram no interior possuem um fascínio pelo literal, pela praia. A gostosa sensação de ser livre, andar quase
nu por todos os lugares. Então, quando chegam as férias, em janeiro, não há
como não sair "voando" para Lucena ou qualquer outra cidade que
possua praia.
Claro,
deixando as suas fortalezas menos protegidas e assim convidando os ladrões a se servirem à vontade. Por que,
então, eles iriam incomodar os veranistas?
A
vida na cidade grande, com seus altos muros e sistemas de segurança, cria uma
falsa sensação de proteção. Paradoxalmente, é nas pequenas cidades, onde a
confiança nos vizinhos e a sensação de comunidade são maiores, que as pessoas
se sentem mais vulneráveis quando se ausentam. Essa aparente contradição revela
a complexidade da questão da segurança e a necessidade de buscar soluções que
vão além da simples instalação de alarmes e câmeras de segurança.
Por
outro lado, estes ladrões alimentam a indústria do consumo. Os assaltados
precisarão repor seus bens, como utensílios domésticos e eletrônicos.
Em
25 de janeiro deste ano, fiquei muito aborrecido porque assaltaram minha
residência, quando eu estava na praia, e furtaram dois notebooks, duas TVs, uma
bicicleta nova, uma máquina de cortar grama, um aspirador de pó, um lava-jato,
um celular e um violão.
Vejo
tudo isso como um custo adicional para manter o nosso estilo de vida. E, agora,
com a Copa do Mundo, você pensa que vou ficar em casa defendendo-a? Tá doido!
Vamos todos juntos, pra frente Brasil, salve a seleção!!!!
Hiran de Melo
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