Narro como sinto – Capítulo 22


A Bicha da Feira

 

Ontem encontrei-me com o Mestre Marçal. Ele havia lido o texto sobre a liberdade de Baixinha no uso de palavrões, em uma época não permitida. Disse-me ele que comentou com alguns velhos amigos que trabalham na feira e eles testemunharam os fatos contados. E acrescentaram novos detalhes.

 

A feira, em todos os tempos, é um lugar especial onde diversas culturas se encontram. Tradições se repetem e outras evoluem, mas sua essência permanece. Mestre Marçal narrou que hoje existe uma personagem que é o centro dos gozadores.

 

O cabaré da feira, muito antigamente, era o lugar de moças belas e velhos ricos. Hoje é o lugar de velhas prostitutas feias e meninos sem destino. A freguesia é rara e pobre. Mas, existe a “moça” do cabaré da feira. Maltratado, feio e pobre. Elegância no andar? Nenhuma. 

 

Quando "ele/ela" desfila, alguém a provoca apenas com um urro, um gruído, um som inarticulado. Ninguém a considera digna de ser provocada com palavras. Mas isso é suficiente para excitá-la ao ponto de responder com um grito direcionado ao vazio: "Despeitados! Despeitados! Despeitados!". Com esse grito, a "moça" insinua que quem a provoca apenas deseja ser como ela, mas não tem a coragem de assumir isso.

 

Mestre Marçal informa que a “moça” do cabaré da feira não profere nenhum palavrão explícito, mas insulta com sutileza aqueles que expressam sua indignação com gritos repetitivos.

 

O termo “despeitado”, aplicado a esses indivíduos, revela uma complexidade de sentimentos: inveja, desejo reprimido, covardia, entre outros. Ironicamente, aqueles que vociferam suas frustrações nas sombras, sorriem abertamente ao testemunhar a reação da “moça”, que os enfrenta com coragem, mesmo sem vê-los.

 

Em nosso encontro virtual, a poetisa Gelda manifestou sua preocupação com as minhas recentes incursões em realidades paralelas. Compreendo suas reservas, mas acredito que a arte, e a escrita em particular, nos concede a liberdade de explorar os confins da imaginação. Essas viagens dimensionais são, para mim, uma forma de celebrar o amor em todas as suas manifestações, inclusive as mais inusitadas.

 

Hiran de Melo

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