Narro como sinto – Capítulo 13
Caldo de cana com pão doce
Uma
das coisas mais simples e deliciosas que gosto de fazer é ir até a feira e
comer pão doce com caldo de cana. Normalmente, essa iguaria é vendida em uma
barraca feita de madeira e zinco, na periferia do mercado central.
O
caldo é moído na hora, o pão doce é feito em uma padaria mesmo. Tudo sem
mistério. Não existe banco ou cadeira para o cliente, é todo mundo em pé. Na
verdade, exagerei ao dizer 'todo mundo', pois quase não há mais fregueses. Com
o 'todo mundo' quero dizer que até o dono da barraca fica em pé.
Para
minha tristeza e quase desespero, nenhum dos meus filhos aprecia essa iguaria
dos deuses nordestinos. E mais, sem nunca ter provado, dizem que não gostam.
Além disso, botam defeito em tudo que veem. Barraca suja, não há higiene nos
alimentos... e tem um tal de barbeiro. Dizem que é um besouro que se faz de
importante e transmite uma doença danada de ruim.
Eu,
sim, não vou ficar dando ouvidos, escutando palpites, a esses meninos. Da era
de ficar o tempo todo olhando só para o celular, mesmo que sejam meus filhos.
Prefiro acreditar no meu pai, que sempre me levava até a feira para apreciar as
iguarias da terra. Dentre elas: a gelada de coco, castanha e amendoim. Tudo acompanhado
com pão doce. Bom demais!
Mais
ainda, radicalizei. Não os levo mais. Eu sou lá homem de ficar levando lições
de meninos. Além do mais, se eles estiverem certos sobre a tal falta de
higiene, só vão com isso diminuir a minha alegria trazendo preocupações que
nunca tive.
Todavia,
para não falarem que sou mal-agradecido, troquei o caldo da feira, pelo caldo
clique que é vendido no centro da cidade. Lá tudo é limpeza pura. Não se vê
nenhuma mosca pairando no ar ou sentada no pão doce. Aliás, este também não
tem. No lugar dele, é oferecido todo tipo de salgado, que nunca vi na minha
infância.
Trocar
o doce pelo salgado, quem lá se viu? Não é à toa que todo mundo está ficando
gordo. O açúcar da cana mais o sal dos pasteis, coxinhas, etc... não poderia
resultar em outra coisa. Bom, tenham paciência!
Levei
os meus meninos para apreciarem o novo ambiente e o novo cardápio. Nada
adiantou. Continuam sem gostar do caldo que nunca provaram. E, ainda por cima,
levantaram uma suspeita sem pé e nem cabeça: disseram que tudo estava
aparentemente limpo, mas que, à noite, as baratas e ratos saiam das suas tocas
e passeavam por cima dos caules da cana.
Viu?
É assim mesmo, quando alguém não quer, não adianta melhorar. Pois, a maravilha,
o troço para ele, continuará ruim de todo o jeito.
São
os novos tempos. As pessoas negam tudo que querem negar. A imaginação não há de
lhes faltar. Enquanto eu sou de um tempo em que as pessoas acreditam em tudo
que querem acreditar, aceitando a vida como ela é, como uma coisa boa. E os
riscos à saúde? Riscos sempre hão de existir. E quem é doido de querer uma vida
sem riscos?
O
bom da vida foi sempre ter fé. Não pensar nos riscos, nem acreditar que eles
existem para atormentar alguém. Existem por que existem, assim como tudo que
existe.
É
uma grande besteira ficar pensando nisso. Enquanto isso, a vida vai passando,
como o trem que passa pela estação sem esperar pelos que sempre esperam e não
entram na vida. Ora, se eu fosse pensar em risco, não teria me tornado
pai e eles nunca teriam nascidos.
Hiran
de Melo
14/04/2014

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