Narro como sinto – Capítulo 21

A casa de Dona Arida
Um
pacote de um quilo de bolachas redondinhas e pequenas. Duzentos e cinquenta
gramas de margarina “Bem Ti Vi”. Uma chaleira cheia de café bem fraquinho e
muito doce. Esta era a receita oferecida todas as tardes de sábado por Dona
Arida. Em torno da mesa da cozinha, um grupo de comensais ávidos pela iguaria e
pelo “preço” que iriam pagar por tal benefício.
O
preço era ouvir, durante a comilança que se dava lentamente, as histórias de
assombração inventadas ou não por Dona Arida. Ela sabia contar histórias.
Criava o clima de terror. De modo que os visitantes comiam mais para esconder o
medo do que pela fome.
Não
se ouvia outra voz, senão a de Dona Arida. Quando muito, um sorrisinho de
alguém tentando esconder o medo ou o ruído provocado pela mordida na bolacha
crocante. A história – à semelhança das demais – era narrada como que um
testemunho vivido pela dona da casa. E havia ocorrido na própria casa.
Estávamos
na cozinha e ninguém se atrevia a olhar para a porta citada, que naquele
momento estava fechada, mas que de repente poderia abrir de novo, mesmo sendo
de tarde. No entanto, a noite se avizinhava.
Na
casa de Dona Arida, só existia um banheiro, e esse ficava no quintal. Fazer
xixi ou cocô era proibido durante a noite. Ninguém se arriscava. Nem o marido
da dona da casa, que, por sinal, sempre vivia no trabalho, de modo que nunca o
conheci. Bem, quando Dona Arida dava o seu testemunho, embora tivesse neguinho
quase fazendo xixi nas calças, ninguém ia ao banheiro, mesmo que o sol ainda
não tivesse se posto.
Convidei
Seu Pintinho, um amigo alto e forte, filho do Seu Miro – meu padrinho –, para a
reunião na casa de Dona Arida. Tudo corria bem até que Seu Pintinho nos alertou
sobre a seriedade da situação, dizendo que 'com essas coisas não se brinca'.
Ele repetiu seu aviso, e logo em seguida, algo inesperado aconteceu: Seu
Pintinho se levantou de repente, e com ele a mesa, que pareceu flutuar por um
instante, surpreendendo a todos.
Nunca
tive um susto igual. As histórias de Dona Arida, antes tão assustadoras,
pareceram brincadeiras de criança perto do que vi. Aquele momento de pavor
ficou marcado na minha memória. Consegui acalmar meu amigo com dificuldade, mas
não havia muito o que fazer. Ninguém se movia, estávamos petrificados. E, mesmo
depois de tanto tempo, Seu Pintinho nunca mais foi o mesmo. As tardes na casa
de Dona Arida perderam toda a magia que antes tinham.
Hiran
de Melo
09/10/2010
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