Narro como sinto – Capítulo 20

A Certeza no Sertão de Bruxaxá
A
vida dos habitantes do Sertão de Bruxaxá, narrada por Mário Carneiro da Costa
no primoroso livro “Histórias do meu Avô”, é marcada pela certeza.
Os
personagens carregam nas suas atitudes e falas a convicção de que possuem a fé
de que todos somos filhos de Deus. São movidos pelo sentimento de justiça
amorosa. Só deve julgar quem possui um coração amoroso. A aplicação de uma
norma por uma máquina, filha do homem, nunca será mais justa do que a aplicada
pelo filho de Deus. Esta é a certeza.
Até
o acobertamento do nome do pai
de uma criança é narrado no
clima em que se busca a solução mediante um mal menor. Um irmão solteiro assume
a paternidade para salvar o casamento do verdadeiro pai da criança, gerada em
um momento de paixão incontrolável, fora do casamento celebrado na presença do
Altíssimo. Tudo é mantido em rigoroso
segredo, só há pouco revelado,
quando todos os personagens estão dormindo a eternidade nas nuvens e seus
corpos já alimentaram o ciclo da vida na terra.
Observe,
não é só o casamento que se busca salvar. Mas, principalmente, preservar a
família de um trauma causado pelo acaso de um ato impensado em sua plenitude. Em decorrência do acerto, a criança foi protegida e
acolhida pela família do pai legal.
Hoje,
tal atitude poderia ser taxada de hipocrisia. Vivemos um tempo em que
prevalecem os tambores da incerteza. Portanto, nada haveria a ser salvo, a menos que o nome do verdadeiro pai
fosse revelado. As consequências desta
revelação seriam sofridas por todos os envolvidos, direta ou
indiretamente.
Os
valores morais existentes no Sertão de Bruxaxá, tais como lealdade, fidelidade
e companheirismo, hoje, são
muitas vezes desprezados em nome de uma ética formal.
Inclusive
o próprio significado original de ética, tratado por diversos filósofos ao
longo dos séculos e sofrendo modificações próprias de todo conceito
condicionado ao processo histórico, vem se perdendo. Todavia, em sua essência,
levar uma vida ética pode ser encontrado no adágio budista: “se podemos ajudar
os outros, devemos ajudar; se não, devemos pelo menos não os prejudicar”.
E
era exatamente essa a ética
vivida pelos habitantes do Sertão de Bruxaxá, nos tempos em que a certeza da
validade dos valores amorosos iluminava a vida de todos, em oposição ao medo
vigente na era dos objetivos incertos.
Já
testemunhava São João, o apóstolo: "O medo é o contrário do amor".
Quem ama busca a conciliação diante dos conflitos de interesses e opiniões, de
visões conflitantes. Quem ama busca as reformas possíveis nas instituições e
nos costumes, de forma gradual e
segura.
Os
partidários do medo, diante de todas as incertezas, querem impor pela força e
pelo ódio um padrão formal de verdade. É bom lembrar que, em nome da Igualdade,
da Liberdade e da Fraternidade, no final prevaleceu o terror que os
revolucionários franceses impuseram aos outros e, posteriormente, a si mesmos.
No
Sertão de Bruxaxá, a arte da troca era respeitada por todos, e os negociantes
eram vistos como benfeitores. Não à toa, desse sertão surgiram valorosos
políticos paraibanos: Walfredo Leal, três vezes governador do estado e duas
vezes senador; Álvaro Machado, governador por duas vezes e senador por outras
duas, tendo como sucessor seu irmão João Machado; José Américo, duas vezes
governador; Otacílio de Albuquerque, deputado estadual, federal e senador por
duas vezes; Domício Godim, senador, entre tantos outros.
Na
época das incertezas, como são tratados
os políticos? Não custa nada lembrar, embora
seja talvez tarde demais para fazê-lo: os políticos são os agentes da democracia representativa.
Juízes, promotores, policiais ou quaisquer outros agentes nunca poderão substituí-los.
Hiran
de Melo
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