Narro como sinto – Capítulo 12

Narro como sinto – Capítulo 12
Como aprender sem ouvir o outro?
Existia,
e ainda existe, uma ladeira enorme que vai do bairro de Nova Brasília ao sítio
Vargem Grande. Pelo menos, era assim que se chamava a pequena propriedade rural
do tio João. Por ser pequena, não era tida como uma fazenda; por não ser tão
pequena, não era tida como granja.
No
seu sítio, o tio João plantava de tudo; logo, colhia de tudo. Além de criar
gado, galinhas e outros animais. Portanto, não havia necessidade de ir à cidade
de Campina Grande para comprar alimentos. Nem para comprar medicamentos, pois
as ervas curavam de tudo.
Sair
aos domingos pela manhã na direção do sítio do tio João era demais! Lá, além da
boa comida, havia diversão e arte. Esperávamos, na varanda, o dono do pedaço
com um sorriso largo de satisfação. E nós levávamos a certeza de que seria um
dia de muita satisfação e aprendizagem.
A
satisfação já começava na descida da ladeira: esforço mínimo, sol mais ameno,
algumas sombras das árvores que invadiam a estrada por cima, mesmo que não
fizessem falta. Havia, em abundância, juventude nas pernas e no coração de cada
um de nós.
Em
verdade, nada faltava mesmo. As sombras eram um acréscimo. Bom, se voltássemos
antes das três da tarde, até que elas seriam mais do que um simples detalhe.
Havia uma longa ladeira a subir e nossas barrigas cheias clamavam por digestão.
Mas,
confesso que logo-logo a caminhada terminava sem que nem percebêssemos o
esforço para subir a ladeira. Era que cada um tinha muitas coisas para relatar.
A realidade, registrada sob o olhar de cada um, encantava quem a relatava e
fazia com que cada um aguardasse sua vez.
Ah!
Mas antes de adentrarmos as plantações do sítio e nos deliciarmos com uma
variedade imensa de frutas frescas, colhidas diretamente do pé, havia a sessão
de perguntas. Na varanda, sentado em sua cadeira de balanço, o tio João
comandaria a festa, tal qual um palestrante de outro mundo.
O
tio João era um homem de hábitos reclusos, raramente saindo do sítio.
Autodidata por natureza, sua sede de conhecimento era insaciável. Absorvia
informações de tudo o que via e ouvia: dos programas de rádio que sintonizava,
dos livros que caíam em suas mãos, da natureza que o cercava. Lia tudo como um
menino curioso, desde romances e poesias até livros esotéricos. Era como se
tivesse vindo de outro mundo, tão vasto e profundo era seu conhecimento.
Entretanto,
já não era época de escuta. Estava saturado de tantas informações e saber. Era
hora de jogar fora tudo o que sabia, de distribuí-lo como quem distribui
chuvas. Não escolhia o terreno a ser molhado. Embora elogiasse muito quem sabia
ouvir e calar, ele me fazia uma pergunta e, antes que eu pudesse pronunciar a
primeira palavra, já estava dando a resposta, agradecendo no final por ter
aprendido muito comigo.
No
começo, embora me sentisse importante como professor de um sábio, estranhava
aquele tipo de coisa. Depois, compreendi melhor: a gente aprende muito mais com quem nos permite falar do que com quem
quer nos ensinar qualquer coisa. Assim, pude observar que cada vez que ele
respondia à mesma pergunta — que ele mesmo havia feito em outra oportunidade —,
o fazia de uma maneira diferente e mais rica.
E,
afinal, para que buscar mais? Ele fazia as perguntas e dava as respostas. Não
se incomodava com o silêncio de quem esperava por respostas inteligentes. Ao
contrário, sorria das perguntas que considerava bobas. O que nos restava fazer,
fazíamos com imenso prazer: nos estirar nas espreguiçadeiras antigas e
gostosas, mantendo os ouvidos atentos.
Lá
pelas tantas, o tio João dava por encerrada a sessão de perguntas e respostas.
Agradecia pelo que havia aprendido conosco e, assim, feliz, nos encaminhava
para a segunda delícia do dia: a cozinha da casa.
Era
hora de tomar café com bolacha melada na manteiga da terra, tudo feito no
sítio. Em verdade, não era hora de comer, mas de se deliciar. Não havia pressa,
não tínhamos nenhuma tarefa a desempenhar que exigisse trabalho.
Barriga
cheia, era hora de esticar as pernas. Fomos ao quintal da casa apreciar as sombras
das árvores centenárias, as galinhas catando a terra, indiferentes à nossa
presença, e sentir o ócio de um cachorro deitado no chão, com mais preguiça do
que todos nós juntos.
O
tempo deslizava sem nenhuma urgência. Era só esperar a hora do almoço. Enquanto
isso, jogávamos conversa fora, papo descompromissado sem qualquer sentido ou
conteúdo inédito.
–
E Dona Creusa, como vai? – Vai bem,
obrigada. – E os seus estudos... vai
passando de ano? – Tudo bem, vai dando para os gastos. Já estou fazendo o
ginasial. – Muito bem, gosto de ver
assim...
Por
brevidade, vou pular a descrição do almoço. Vamos direto ao passeio pelo sítio
após a refeição. Era hora de colher frutas direto da árvore. Todo mundo podia
pegar à vontade, tudo o que conseguisse comer. Nada de desperdício, e nada de
levar para outro dia.
No
final, lá no fundo do sítio, havia uma plantação de cana-de-açúcar. Aquilo não
era trabalho para amador. O tio João fazia tudo sozinho: cortava a cana,
carregava-a no ombro e voltamos para o quintal da casa, onde havia um moinho.
Lá,
na barriga de cada um, ainda haveria um espacinho para o caldo de cana com pão
doce, tudo feito na hora e com muito amor. E, como o amor, era de graça.
Hiran de Melo
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