Narro como sinto – Capítulo 3

A cura pela cuia virgem

 

O Restaurante do Carlão está localizado em uma avenida pacata e curta. Dessa forma, tem pouco movimento de automóveis, sendo fácil encontrar estacionamento entre as entradas de duas garagens das casas adjacentes. Todas as casas possuem garagem, embora os donos não necessariamente possuam carros. Elas foram construídas como uma demonstração do que se quer, a exaltação de um desejo.

 

Próximo do restaurante encontra-se uma oficina de bicicletas, cujo técnico é o amigo e ciclista Evandro. Como minha bicicleta é frequentadora assídua da oficina, comecei a notar a presença do Mestre Marçal no Restaurante do Carlão. Na cabeceira de uma mesa, triunfante, lá estava ele, ensinando filosofia, terapia e arte. E, no entorno da mesma, uma tribo de profissionais aposentados e opinantes sobre qualquer tema. Doutores, facilmente reconhecidos nas Universidades que outorgaram ao Presidente Lula o título de Doutor.

 

Estas reuniões se alongam do zênite até o pôr do sol. Claro, não para todos. Aos poucos, o grupo vai diminuindo na medida em que a bebida faz o seu efeito salutar: dá sono em quem falta. Assim, o restaurante vai assumindo um caráter semelhante a um bar.

 

Noutro dia, o que era inevitável aconteceu. Parei e fui cumprimentar o Mestre Marçal. Ao chegar lá, sentei-me em uma cadeira da mesa vizinha.

 

Como sabemos, conversa de bêbedo só suporta se beber também. E sendo assim, como tira-gosto, me foi oferecido uma delícia de iguaria: o patinho do osso. Gostoso e rico em cartilagem como o Mocotó bovino. Impossível não voltar. E agora tendo dois motivos alimentares: cartilagem para os joelhos e palestras para a alma.

 

Hoje, Dia de Finados, sentindo muitas dores nos joelhos, fui ao Restaurante, que também funciona como Bar do Carlão, em busca de um remédio. Eram quinze horas. Ao chegar, Carlão me trouxe os dois últimos exemplares do Osso do Patinho. Não precisa de acompanhamento, pois já vem generosamente coberto com caldo de feijão.

 

Cumprimentei o mestre e os opinantes de sempre. Fiquei na mesa ao lado. Na mesa do Mestre Marçal só tem esse privilégio quem madruga. E tem que ter paciência; já se sabe que ele não vem direto. Antes passa por vários botecos da vizinhança. Obrigação para quem cultiva um grupo de admiradores. Na sua grande maioria, alcoolizados. Não importando se o álcool vem no vinho, na cerveja ou na sua forma pura e imaculada: cachaça, oriunda da destilação do mel da cana de açúcar.

 

No dia de Finados, o Mestre Marçal não me deixou ir embora logo após eu tomar o remédio. Ele disse que tinha outro remédio que me curaria para sempre e de todas as dores. Que havia deixado aqui no Carlão há cerca de um mês. Era o seu presente. Poderia até ter pensado: "Hoje também é o meu dia".

 

O sol já se aproximava e eu ainda estava lúcido. Resolvi, não sei por quê, não beber. O Mestre Marçal se afastou da mesa e se dirigiu ao seu espaço de palestras, o famoso Calatório, onde proferia suas palavras mais sábias. A ideia era que, com ele presente, todos os ouvintes se calassem e prestassem toda a atenção. Ficou só na ideia, uma boa intenção de criar um momento de reflexão.

 

Agora vinham as partes mais difíceis. Primeiro seria preciso purificar o Calatório. Bêbedos imprudentes haviam violado o sagrado lugar, colocando garrafas de cerveja vazias sobre o lugar sagrado. Tarefa ritualisticamente cumprida, começava a guerra pela atenção dos “ouvintes”. Os opinantes são ávidos por falar sobre tudo. Possuem mil bocas e nenhum ouvido. Difícil imaginar de onde vem tantos “saberes”.

 

A palestra do Mestre Marçal dura quarenta minutos, a maioria dos quais utilizada para pedir e ordenar silêncio. A cada pedido ou “ordem”, um monte de réplicas. “Fale logo, diga tudo em dois minutos; eu também tenho o direito de falar...”. Uma guerra real, composta de diversas batalhas. Inclusive o Carlão, sempre silencioso e obsequioso, fez uso da palavra para ensinar que “cuia”, palavra central da palestra, na terra dele era a palavra usada para designar o marido que era dominado pela mulher. Até mesmo uma senhora imponente adentrou ao ambiente e fez calar a todos. Foi silenciosamente para a cozinha e lá ficou.

 

Precisaria escrever um livro de mais de mil páginas para registrar todas as batalhas e resumir o essencial da palestra. Entretanto, vou apenas revelar as últimas palavras ditas no momento em que as cortinas se fecharam, no final do último ato. Não serão registradas textualmente, mas como eu as ouvi.

 

Doutor Hiran, trago-lhe dois presentes. Uma cuia, obtida da metade de um cabaço, para seu banho matinal. E uma cuinha, para tomar seu medicamento todas as manhãs”. Ai, bateu com força no Calatório e todos se calaram. “Pode ser até água pura. Não importa. Coloque qualquer coisa nela, olhe para o céu, abra a boca e deixe cair. Não precisa de fé. Faça isso todos os dias e estará curado. Mas como ela é nova, antes coloque-a no orvalho da noite, raspe seu interior ao amanhecer e leve-a ao sol. Ela é sua, ninguém toque nela”.

 

Aplauso e abraço. Sai satisfeito e contente com os presentes e a cura prometida.

 

Hiran de Melo

02/11/2018.

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