Narro como sinto – Capítulo 11

Do Céu ao Bar do Canarinho

 

Na minha época de estudante, toda sexta-feira e todo sábado, o destino sagrado era o CEU - Clube dos Estudantes Universitários. Alguns, embalados pela fumaça do cigarro proibido; outros, como eu, já naturalmente entusiasmado, nada precisavam para estar no céu.

 

Todo mundo se conhecia ou se fazia conhecer. A troca de olhares era permitida e não havia segundas intenções, era como se o olhar revelasse apenas "como é bom estar aqui". Estamos aqui! Pronto. E o que mais precisávamos? Apertos de mãos na entrada, nos primeiros encontros; abraços nos mais íntimos e muita música e bebidas.

 

Todo mundo se conhecia ou se fazia conhecer. A troca de olhares era permitido e não havia segundas intenções, era como se o olhar revelasse apenas "como é bom estar aqui". Estamos aqui, pronto. E precisava mais? Apertos de mãos na entrada, nos primeiros encontros; abraços nos mais íntimos e muita músicas e bebidas.

 

Havia de tudo, desde líderes estudantis promissores que ficaram só nisso - como o Carlinhos da Volta de Zé Leal - até poetas cassados, como o saudoso Ronaldo Cunha Limas, que viria a ser Governador do Estado. As mulheres, ah, as mulheres! Algumas, belíssimas, continuam aparentando a mesma idade de outrora; outras, nem tanto, especialmente hoje.

 

A maioria, com pouco dinheiro, costumava ir à bodega da esquina e tomar um gole de cachaça. A bebida era forte e ardia intensamente. Depois de beber, contorciam o rosto e ansiosamente mastigavam chicletes para disfarçar o hálito. Sobrava apenas dinheiro para uma cerveja, com a qual se sentiam ricos por uma noite.

 

Uns dançavam pelo puro prazer de se movimentar, sem se preocupar com a técnica. Outros, no entanto, dançavam para chamar atenção. Era invejável ver o rapaz sendo disputado por todas as meninas, loucas para aprender seus passos. Porém, à medida que a novidade passava, essa fama costumava diminuir. Afinal, quem se dedica intensamente a uma arte nem sempre se preocupa com a aparência física.

 

Tinha quem ia com a linda namorada. Tudo muito respeitoso, muito formal. Conversavam animadamente até às duas da madrugada, quando ele começava a mostrar sinais de cansaço. Com uma certa impaciência, a namorada o puxava para ir embora. Ele se despedia rapidamente dos amigos, que, com um piscar de olho, sinceramente desejavam-lhe um “boa noite”.

 

Mal o carinha se despedia da namorada, já voltava voando para o segundo tempo no CEU. Agora vinha a melhor parte. As meninas que não tinham partido se entregavam à dança. Cada par se fundia em um só corpo. E depois de tudo, levar ela pra casa era demais. Em cada esquina, novos abraços e novos beijos. Pareciam amantes para toda uma vida, mas eram apenas de uma noite só.

 

Algumas horas depois, já de ressaca, nem mesmo o nome conseguia lembrar. Sob o véu da embriaguez e da necessidade, todas se transformam em deusas.

 

A balança sempre pendia para um lado, deixando muitos solitários. Nestes casos, o melhor era buscar conforto na companhia de seus desconfortáveis amigos. O destino era o Bar do Canarinho na feira central, um lugar que nunca fechava e servia tira-gostos que pareciam ter vida própria.

 

Mas o mais divertido era cantar e contar as aventuras da noite. Todo mundo tinha se dado bem, vivendo suas próprias aventuras lá em cima. Como aquela história daquela garota, que ficara te lançando olhares, mesmo estando com aquele cara.

 

Ninguém sabia ao certo por que todos estavam ali, naquele lugar esquecido, geralmente frequentado por gente mais velha. Mas, às cinco da manhã, o lugar estava tomado por estudantes, sem muito dinheiro no bolso, mas com muita disposição para a festa.

 

Só quem não ia ao Bar do Canarinho, mesmo em noite ruim, era o amado amigo Lula, mais conhecido como Lula Peixe. Para ele, toda mulher era uma obra de arte, a ser apreciada em sua singularidade. Desde que não houvesse uma mulher que correspondesse ao seu ideal de beleza, qualquer uma servia. Pense em alguém eclético? Se você busca o sinônimo de ecletismo, procure por Lula Peixe. Não há um dicionário que o defina melhor, a não ser ele mesmo.

 

Só muito depois, em um giro inesperado da vida, conheci um exemplar tão peculiar quanto o Lula, mas em um espectro completamente oposto: o lendário amigo Jacob, que gosta de ser tratado como Terra de Cemitério, um apelido que carrega consigo uma história sombria. Mas, esta é outra história que agora não vou contar, a não ser que vocês insistam em ouvir as aventuras de um homem que conhece os segredos da noite.

 

Lula Peixe nunca ficava só no final da festa. E se ficasse ele saia atrás do prejuízo, de olho vivo nas esquinas, até chegar ao Paulistano ou ao Guarani. Clubes frequentados, na sua maior parte, por empregadas domésticas e rapazes de idade avançada. E que sempre terminavam as suas atividades muito mais tarde.

 

Lula Peixe tinha uma vantagem diferencial: o carro do pai! Não voltava a pé, depois da festa, como a maioria dos universitários. E estando você dentre os que sobraram, era uma "boa" ser convidado por ele para ir à caça das sobras da noite, nas outras festas. 

 

Difícil dizer o que era mais triste: terminar a festa no Bar do Canarinho ou no carro do Lula Peixe acompanhado de mulheres tristes e embriagadas.

 

Tempos que não voltam mais... se podia caminhar bêbados pelas ruas da cidade sem ser preso ou assaltado; dirigir embriagado na noite que se despedia e apanhar "o sol na mão” abraçado ao lado de quem não se amava, não se sabia o nome e não se encontraria depois, jamais.

 

Hiran de Melo


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog