Narro como sinto – Capitulo 1

Era uma vez...
Era
uma vez... belas histórias começavam normalmente assim. As imagens eram criadas
no tempo passado. Deslocamento necessário para propiciar um distanciamento
confortável para a imaginação imperar. E assim minha infância foi povoada pelos
espaços do imaginário.
Não
precisava de muitas coisas para criar um grande exército e um valente líder.
Tampas de garrafas de refrigerantes eram os guerreiros. Caixas de fósforos eram
as carruagens. Os épicos projetados no Cine Capitólio serviam de referências
aos combates e conquistas.
O
espaço físico disponível limitava-se ao meu quarto de dormir, 3m X 3m. Pequeno
visto hoje, um imenso mundo visto ontem. A grande tela estava escondida no
mesmo lugar onde se encontrava o terceiro olhar.
Não
existia televisão, nem internet. Mas o rádio irradiava imagens de sonhos e
belas canções. Já existia a rádio novela e os seriados de aventureiros
justiceiros. E a rua era a extensão da casa. Uma extensão compartilhada com os
outros das outras casas. Mas, também com o simples caminhante.
A
rua acolhedora como um espaço público respeitado por quase todos. Era verdade
que os cachorros urinavam nos postes e defecavam em qualquer lugar. Também
"faziam amor" na vista de todos, mas não para se exibirem, apenas
responder aos instintos. Ninguém parava para ver. Era parte da paisagem
costumeira.
A
rua também era um campo de futebol, um lugar para a brincadeira de barra
bandeira. E tantas outras mais. Automóveis? Raros. Quando passavam eram ônibus
e caminhões. Todavia, não assustavam e nem ameaçavam. Transitavam devagar.
Tanto assim, que uma brincadeira gostosa, para moleques mais atrevidos, era
pular do ônibus em movimento. Ou do carrossel no Parque Maia, mas isso só
durante uma semana por ano.
A
gente caía em pé, todo elegante. Fazendo pose de galã de cinema. O máximo.
Semelhante a pular do carrossel no quase final da viagem.
O
grande vício era o cigarro. Sendo um
vício, era praticado às escondidas dos pais. Deixava um gosto ruim na
boca e um respirar que fedia. Foi fácil abandoná-lo. Em vez disso, preferia a doçura do beijo da minha prima, sempre trocado
em segredo. Era um beijo sagrado, envolvido no mistério e no segredo da
excitação adolescente. Depois do beijo, segredos eram revelados, mas, por serem tão íntimos, não podíamos torná-los
públicos. Beijo, troca do sopro vital.
Enquanto
o cigarro deixava um gosto amargo na boca, o nosso beijo era doçura da vida.
Aqueles momentos marcaram uma época de segredos e lealdade. Um tempo que jamais
voltarei a viver, mas que levo para sempre no coração.
Hiran
de Melo
09/12/2009
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