Narro como sinto – Capítulo 10

Espaços de convivência
Contou-me
uma vez um velho russo que existia um comprador de almas mortas. Ouvi
atentamente todo o seu relato e o guardei por muitos anos na memória. Contudo,
a lembrança, com o passar do tempo, perdeu a nitidez, restando apenas uma ideia
vaga de almas mortas.
Assim,
muitas vezes penso que estou em um barco e que os demais companheiros esperam
que eu seja o comandante. Por isso,
me encho de responsabilidades e tomo decisões que nem sempre são consensualmente
aceitas, trazendo-me, assim, aflições.
Aos
poucos, compreendo que, por mais que eu decida, cada um anseia por sua
liberdade. Desejam caminhar com os próprios pés, respirar no seu próprio
espaço. No entanto, quando o barco ameaça afundar, a ironia é cruel: clamam por
uma morte compartilhada, um afogamento em conjunto. Mas como morrer juntos, se
a indiferença já nos separou em "almas mortas"?
Toda
uma vida sem uma história em comum não tem autoridade para clamar por
solidariedade. No desespero, clamam por união, mas a ausência de uma história
compartilhada torna a solidariedade um ato vazio. Ser solidário nas perdas é a
proposta do medo. No desespero, algumas se abraçam, outras buscam coerentemente
uma salvação individual.
O
sacerdote, com sua voz suave e sedutora, prometia a salvação, mas a salvação
que ele oferecia era individualista, um refúgio egoísta do sofrimento do mundo.
Os crentes, em sua fé cega, buscavam no perdão uma forma de purgar seus pecados
e encontrar a paz interior. Mas o perdão, assim como a salvação, era uma moeda
de troca, um favor a ser concedido em troca da submissão.
Ao
deixar o coliseu, os crentes se dispersavam, cada um carregando consigo a
ilusão da salvação ou a semente da dúvida. A vida continuava a mesma, com suas
dores e angústias. A busca por um sentido para a existência permanecia, e a
pergunta ecoava no vazio: onde encontrar a verdadeira salvação?
Na
saída do Coliseu ouvi uma voz que revelava, gritando a um amigo, do quanto
pecara naquela noite, desejara ardentemente possuir o sacerdote.
A
música do Rei ecoava em seus ouvidos, um lamento melancólico que parecia
resumir a futilidade da busca humana. A confissão de uma criatura, ouvida por
acaso, revelava a fragilidade da alma e a impossibilidade de escapar da
condição humana. A salvação, afinal, não era um destino a ser alcançado, mas
uma jornada a ser percorrida, marcada por dúvidas, incertezas e a constante
busca por um sentido.
Hiran de Melo
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