Narro como sinto – Capítulo 18


A Forma Extrema de Amar

 

Domingo à tarde, a sensação de estar perdido me acompanha. Ontem, sob o sol da tarde, percorri as ruas da cidade, buscando algo indefinido. E foi em um desses passeios sem rumo que, ao virar a esquina, vi o Grande Mestre Marçal sentado em uma mesa do Bar do Luiz. Aquele encontro, tão inesperado, foi como encontrar uma ilha em meio a um mar de dúvidas.

 

Dos mistérios dos antigos egípcios às fronteiras do universo, nada escapava ao conhecimento do Grande Mestre Marçal. Um verdadeiro buraco negro de sabedoria, ele absorvia tudo que encontrava pela frente. E, apesar de sua mente brilhante, era um homem simples e generoso, que nunca cobrava nada por seus ensinamentos.

 

Ao me aproximar, ele se levantou com gentileza e me envolveu em um abraço avassalador, um abraço de gigante. Logo, começou a perguntar pelos amigos do passado. A cada pergunta, um nó se formava em minha garganta enquanto eu tentava encontrar as palavras certas. Até que, com um suspiro resignado, o mestre compreendeu a inevitabilidade da finitude. Seus olhos, antes brilhantes, agora pareciam refletir a sabedoria acumulada ao longo de uma vida inteira.

 

Após um breve momento de reflexão, a tristeza deu lugar ao brilho nos olhos do mestre, e ele retornou à sua habitual paixão por contar histórias. Relatou-me que quando morava na Capital da República, conhecido ficou como o Poeta dos Mortos. Pois quando ia a um funeral de um amigo, sempre declamava uma poesia nova em homenagem ao falecido, transformando a dor da perda em um belo tributo à vida. Dizem que também sou poeta. Até que admito, embora minhas rimas sejam mais tropeços que melodias, tento fazer da minha vida um poema, mesmo que seja um tanto quanto desafinado.

 

Morando em João Pessoa, ele já havia vivido em diversas partes do mundo, mas tinha um ritual peculiar: vestia-se com um velho calção de banho, colocava uma camiseta no ombro e partia para o mar. Um homem que conhecera o mundo, mas que nunca havia sentido a areia entre os dedos. Isso porque, antes de chegar à praia do Bessa, havia um imã que o atraía: o Bar do Noaldo. Ali, ele encontrava um assíduo e estranho frequentador, o Professor Lucas.

 

O professor era um homem de vasta cultura, falava seis idiomas e conhecia a Europa tanto pelos livros quanto caminhando pelas ruas das cidades do velho continente. Em contrapartida, Seu Noaldo talvez fosse completamente analfabeto. O curioso é que os dois eram grandes amigos e passavam horas conversando diariamente.

 

Movido por sua insaciável curiosidade, o Grande Mestre Marçal indagou aos dois: "Sobre que temas conversavam tanto?"

 

Surpreendentemente, Noaldo respondeu – “E eu sei lá! Um homem tão sabido, fala seis línguas, mas ainda não aprendeu a falar a nossa”. A resposta do brilhante professor não foi menos surpreendente do que a de Seu Noaldo. Ambos falavam muito, demasiado, ambos não se escutavam.

 

Era como se estivessem em conversas paralelas, cada um imerso em seu próprio mundo. Ambos adoravam este estado de plena fala e ausência de escuta. Continuaram amigos até que a morte os separou.

 

E claro, o Poeta dos Mortos esteve no funeral para declamar a mais recente poesia de sua autoria. Ah! Todas as anteriormente declamadas também pertencem a ele. Ao chegar teve um choque. A causa de tantas bebedeiras estava abraçada ao caixão gritando: “Meu amor! Meu amor! Você não poderia me deixar aqui”.

 

Eles haviam se separados há muitos anos; e a mulher por ódio impediu que os filhos falassem com o pai. E, aí, o Professor entrou em um profundo e sem retorno processo de decadência. A ironia era cruel: a mulher que ele tanto amava o odiava sem cessar, e agora o lamentava em público.

 

De pronto, o Poeta dos Mortos entendeu, penso eu, que o ódio não é o contrário do amor, como ensina o Apóstolo João. Entretanto, o ódio é a forma extrema de continuar amando a quem não mais se deseja amar.

 

Não indaguei, mas acho que nós dois compreendemos: o que a vida não ensina, a morte revela; o que a união não exprime, a separação exibe.

 

Antes do pôr do sol chegasse e o álcool alterasse as nossas consciências, nos despedimos contentes por nos encontrarmos mais uma vez. Nunca mais nos encontramos. E o Bar do Luiz fechou recentemente.

 

Hiran de Melo


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