Narro como sinto – Capítulo 9

Horizonte perdido
A
sua alma dorme com a roupa que passou o dia. Não é falta de higiene, a sujeira
não atinge as almas. É um modo simples de demonstrar que não se está aberto a
uma relação íntima. É uma forma, dentre outras, de criar barreiras a algo que
não convém mais.
Nada
mais doloroso do que acompanhar uma relação que piora com o tempo. Um desejo de
escapar do sofrimento, de encontrar uma solução próxima, todavia, tudo se
mostra tão distante. Não é tão simples dizer adeus.
Não
querer perder o já perdido. Contemplar uma folha caída e observá-la murchando.
Não é possível devolvê-la à árvore, contudo, o desejo do impossível insistiu em
permanecer no horizonte.
Tristes
e tolas tentativas de devolver a folha caída ao seu lugar de origem. Todavia,
repetem-se insistentemente. É uma fé que não move montanha, mas que move a alma
na tentativa de abrir caminho dentro do mar.
A
árvore exibe novas folhas, flores e frutos. Tudo tão belo e vivo. Por que
continuar com o olhar voltado para o chão? A resposta se perde. Talvez o olhar
também tenha morrido.
Há
esperança de que algo diferente cresça? Talvez, quando o oceano de lágrimas se
acalmar. Afinal, a dor já começa a ceder. Observo que, a cada dia, as lágrimas
são menos abundantes. Muitas, melancolicamente, já partiram deixando na fonte
um olhar embaçado.
-
Há esperança de que algo diferente cresça?
Um
dia, o vento que vem do Norte chegará forte e levará com a folha caída como se
pássaro fosse.
Entretanto,
tudo isso não se constitui uma esperança de saída. O corpo um dia partirá, é
certo. Como também o é a eterna presença da imagem gravada no coração
envelhecido.
Hiran de Melo
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