Narro como sinto – Capítulo 8

João e José
No
alto das montanhas esquecidas havia uma venerável escola preservada no tempo. A
maioria dos alunos era órfã, de origens desconhecidas.
Lá,
a disciplina era rígida como granito, e o horário, sagrado. Os exercícios
obedeciam a uma periodicidade precisa, moldando os corpos e as almas com igual
zelo. Alimentos nutritivos fortaleciam o corpo, enquanto a oração cultivava a
alma, em busca de um equilíbrio perfeito.
Os
alunos vestiam um mesmo fardamento de algodão cinza, macio e confortável, ideal
para os exercícios. Ao pôr do sol, após um dia de estudos, eram chamados para a
prática de uma antiga luta de pares, que buscava o equilíbrio entre força e
flexibilidade.
A
luta era uma sinfonia de movimentos, onde corpo e espírito se fundiam em
perfeita harmonia. O objetivo não era derrotar o oponente, mas colaborar com
ele para o êxito do combate. De modo que a energia vital fluía por seus corpos.
Os lutadores, com os braços esticados como lâminas de luz, executavam uma dança
ancestral, onde um movimento mal calculado poderia resultar em lesão grave.
A
luta durava até o sol se pôr. Na verdade, era uma atividade de curta duração,
mais um momento de alegria e descontração do que um compromisso.
Dentre
os alunos havia uma dupla de irmãos gêmeos, João e José, que lutava de forma
tão bela que beirava a perfeição. Formavam a dupla referência em luta de toda a
escola e orgulho do venerável mestre de todos.
Um
dia, mensageiros do Rei chegaram com uma ordem expressa: a escola fora
convocada a participar de um torneio, e o combatente vencedor seria nomeado
Campeão Absoluto do Reino. Partiram para uma competição que, segundo a tradição
da escola, não deveria ter um vencedor. No
entanto, a ordem real era incontestável. Como poderiam
desobedecer ao Rei?
Os
alunos foram separados, como peças de um tabuleiro, em dois grupos: um manto
negro envolvia um grupo, enquanto outro, resplandecente, cobria o outro. O
preto, a escuridão que escondia as profundezas da alma; o branco, a pureza que
buscava a luz. A luta seria realizada entre um componente de cada grupo.
Quando
as lutas foram iniciadas, os empates iam se sucedendo, para a alegria do
venerável mestre e aborrecimento do Rei. Até que, quando os irmãos gêmeos foram
anunciados, ocorreu uma surpresa. João,
vestido de preto, anunciou seu profundo e profano desejo: "Desta vez haverá vencedor".
Ao
final do tempo regular, o empate ocorreu. José parou, mas João não parou de
lutar. Desejava ardentemente ser o campeão e foi. Uma grande alegria irradiou
do Rei, enquanto uma grande tristeza tomou conta do mestre e dos demais alunos.
A
escola partiu e João ficou preso às festas comemorativas da vitória. Devorou
tudo em excesso, de modo que o que era alimento foi se tornando veneno. Afogado
em banquetes, o campeão, dia após dia, sucumbiu a uma grave doença causada pela
gula.
A
escola, antes vibrante, agora se encontrava imersa em uma profunda tristeza e entrou
em duplo luto, pois José parou de se alimentar e morreu.
Hiran
de Melo
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