Narro como sinto – Capítulo 17

A Máquina do Tempo

Muito diferente de hoje era o meu tempo de menino. Naquele tempo uma coisa era contada, repensada e recontada muitas vezes. Cada vez um pouco diferente, mas sem perder a originalidade. Sentia-se o genuíno presente em cada palavra acrescentada ou subtraída.

Uma destas coisas contadas era a máquina do tempo. Era falada, mas não era descrita. A máquina do tempo permitiria a qualquer pessoa viajar ao passado ou ao futuro. A pessoa poderia estar presente no passado ou no futuro, mas sem nada nele alterar. Estar presente de um jeito singular: a pessoa poderia viajar no tempo, ir para qualquer data escolhida, mas lá esta pessoa não existiria.

Já viu, né? Essa tal máquina do tempo poderia ser contada, recontada, tantas vezes se desejada, sem saturar a imaginação.

Hoje existem coisas que, de tão fantásticas, são comuns e ninguém se admira. O celular, por exemplo. Quase todo mundo tem um ou mais. Entretanto, o que se comenta é o modelo, não o celular em si. 

Quero ir para um restaurante do qual só conheço o nome. Digito o tal nome em um aplicativo do celular e ele me ensina como chegar lá oferecendo, até, um mapa do caminho e uma voz indicando o que fazer.

Nem preciso mais fazer qualquer operação aritmética. Digito no celular os números e ele faz para mim. Inclusive, faz tantas operações complexas cujas regras, para obtenção do resultado, nem lembro mais. Pra quê, se o celular faz para mim?

 Vamos deixar para lá as coisas da contemporaneidade, todos as conhecem e poucos têm verdadeiro interesse nelas. Volto a falar da máquina do tempo. Uma invenção antiga, muito antiga. Mas cada um faz a sua do jeito que gosta.

Falo de uma delas, construída com engenhosidade pelo Mário Carneiro da Costa, que lhe deu o nome de Histórias do meu Avô. Um pequeno livro contendo menos de 100 páginas. Todavia, oferece uma delícia de viagem aos anos em que viveram o Seo Maneco e a Sinhazinha.

21 rápidos relatos constituem o livro como se fossem vídeos. A linguagem utilizada é a da época mesmo, final do século XIX e início do século XX.  O fio condutor é a voz do escritor. Ele relata histórias ouvidas, mas o faz como se fosse ele o protagonista. Passeando nas páginas, sinto-me como estivesse sentado em uma varanda a ouvir o Mário contar suas aventuras e me fazer viajar nelas, no tempo.

O Seo Maneco é uma pessoa que olha para um desafio como uma oportunidade de crescer com ele. Nunca como um inimigo. Sempre que pode converte um potencial adversário em um amigo, um parceiro de trocas. A arte da troca exercida com cortesia, amabilidade, esperteza e prudência. No exercício dela, o Seo Maneco converte o improdutivo Zé Maniva em um parceiro do progresso produzindo instrumentos de cozinha.

O homem não é de brincadeira, apresenta até soluções naturais para problemas sobrenaturais. Descontrói o Lobisomem, faz coisas que só o Mister-M faria nos tempos modernos, como por exemplo, revelar a mágica do Peru Dançarino.

Poderia ficar aqui a lhe contar muito mais das coisas preservadas nas letras do Mário. Os tempos modernos não me permitem. Ninguém gosta de ler nada que passe de uma lauda. Nem de viajar no tempo. Mas, se você gosta, corra e adquira o livro Histórias do meu Avô. E nem precisa agradecer, já estou feliz por você.

Hiran de Melo

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