Narro como sinto – Capítulo 5

O Clube dos Caçadores
O
senhor Giorgio era um homem de poucas palavras, de fala nobre e em português
impecável. Media cada palavra antes de falar. E falava com muitas pausas.
Era
guarda da Polícia Rodoviária Federal. Era uma autoridade quase sempre vestida
com sua farda engomada e sapatos brilhantes. Um preto que irradiava luz. Tinha
três filhos. O mais velho, meu amigo, era o encarregado deste milagre.
Engraxava diariamente os sapatos pretos do seu pai.
Outra
lembrança que guardo refere-se à ausência de diálogo com os filhos. Vivia em
casa como se fosse comandante de um quartel, vivia dando ordens. Seu trato
autoritário, mais do que amoroso, intimidava os filhos com um simples olhar.
A
casa do Policial não tinha jardim e, praticamente, não existia quintal; era tão
pequeno que mal se notava. Hoje, poderíamos estimar suas dimensões em cerca de
seis metros de frente por trinta de fundos.
A
arquitetura da casa era singular. Um terço era ocupado por uma garagem e uma
pequena oficina. Em seguida, vinham um quarto, uma sala de visitas e um longo
corredor, como em um hotel, que dava acesso aos demais quartos, à cozinha e ao
diminuto quintal. A casa tinha duas frentes, ou seja, dois acessos: um pela
oficina, de uso exclusivo do dono da casa, e outro pela sala de visitas.
Hoje,
a casa pode parecer muito pequena, mas naquela época não era. Afinal, os
meninos quase não ficavam dentro de casa. Na rua, era onde os meninos passavam
a maior parte do tempo, em momentos de lazer e aprendizado. A rua era nossa, um
espaço de liberdade, vivência e aprendizado, longe dos olhos da autoridade
paterna.
A
garagem era o lugar mais nobre, pois abrigava um carro muito antigo, mas amado
como se fosse o ancião da casa. Tão velho que só se movia graças às habilidades
de mecânico do guarda rodoviário, daí a existência da oficina. Era um Ford de
carroceria de madeira. Raramente saía da garagem. Saía da garagem no final de semana, como se
fosse para a igreja, limpo e reluzente.
Quando retirado da garagem, o carro era lavado, enxugado e
polido. Depois de um longo período de aquecimento do motor, estava pronto para
a jornada de aproximadamente 5 km, que começava na porta da garagem e
terminava, milagrosamente, no Clube dos Caçadores. Às vezes, eu também acompanhava essa longa jornada, indo em cima
da carroceria. Não havia perigo, a marcha era lenta, muito lenta. Dava até para
descer do carro em movimento, correr atrás e subir de novo. Que prazer! Mas,
claro, tudo isso era feito longe do olhar atento do motorista.
No tempo de nossa infância, o policial ia ao Clube
dos Caçadores nos finais de semana, levando seus filhos e alguns amigos,
incluindo eu. Tínhamos a oportunidade de entrar no paraíso: o parque de diversões
do clube. Tudo era de graça. Rústico, simples e com poucos equipamentos, mas em
uma época sem internet, um balanço já era um encanto. Que encanto! A cada
oscilação, a amplitude aumentava. Parecia que íamos alcançar os céus, voando
como pássaros, longe dos olhares dos caçadores, ali tão perto.
O clube ainda existe hoje, mas os caçadores, não
mais. Antigamente, caçar aves de arribação era o lazer dos homens. Normalmente,
caçavam rolinhas uma vez por ano. Eram aves diminutas, mas de sabor incomparável,
especialmente quando assadas, ficando crocantes. Com o tempo, os homens jovens
perderam o interesse pelo longo ritual da caça – preparar a munição, o gibão de
couro e a comida na véspera – e os homens mais velhos morreram. Sobrou apenas o
clube, meio abandonado.
Hiran
de Melo
Comentários
Postar um comentário