Narro como sinto – Capítulo 2

 O rei da sovaqueira

 

Fui chegando e recebido pelo Mestre Marçal com a alegria de sempre e com a pauta da reunião na ponta da língua: “hoje o tema será a sovaqueira”. “Aguarde”, foi o que ouvi. Era equivalente a uma ordem: você não pode sair antes de ouvir a palestra sobre o Seu Tio que tudo resolvia com a sua famosa sovaqueira.

 

Ao chegar a hora da palestra diária, Mestre Marçal dirigiu-se ao Calatório, tribuna improvisada no Bar do Seu Carlinho. Normalmente, todos os convidados se calariam para ouvir suas palavras revigorantes e cheias de vida. Mas não foi dessa vez. A bebedeira havia começado três horas antes e todos já se encontravam em estado alterado. Mesmo assim, como de costume, ignorando a falta de atenção, o mestre deu início à sua fala. O que segue são fragmentos do que pude ouvir e memorizar.

 

A bica da casa não funcionava e, portanto, a água da chuva escorria pela parede. Chame o Seu Tio! Ele já sabia do que se tratava e nem precisava examinar. Descia a camisa, passava a mão nas axilas, até que ela saísse molhada. Metia a dita cuja na bica e pronto! Não era preciso esperar. Um monte de marimbondos se projetavam tontos e caíam mortos pelo cheiro apavorante do líquido contido na mão milagrosa. Nenhuma ferroada a ser contada. A água, em abundância, agora escorria da bica, levando a casa dos marimbondos mortos. Problema resolvido! Aplausos.

 

O Seu Tio só se banhava da cintura para baixo, pois não podia correr o risco de perder o seu cheiro milagroso. Essa era a razão de sua grande fama em toda a região, que já se alastrava pelas regiões vizinhas.

 

Além de tudo, o Tio era o grande pacificador. Se dois cabras-machos se desentendessem e partissem para uma luta mortal, bastava o Seu Tio passar a mão no sovaco e direcionar aquele cheiro forte em direção às narinas dos animais para que eles desmaiassem. Pronto, a guerra tinha fim. A paz voltava a reinar na região.

 

Nem precisava de polícia no bairro onde ele morava. Quando o sol se punha, o Tio passeava sem camisa pelas ruas. Não restava mais ninguém; portas e janelas se fechavam, e todos iam dormir. Nem mesmo os vagabundos permaneciam nas ruas. E os cachorros sem dono nem latiam; abaixavam as orelhas e corriam para longe.

 

Só havia uma pessoa que se aproximava do Seu Tio e convivia com aquele cheiro forte sem se queixar: sua magnânima esposa, Dona Tia. Sim, ele era casado e muito feliz no casamento. Nunca se soube de uma briga entre o casal. Ah, não pense que Dona Tia tinha mau cheiro nas axilas. Nada disso, ela era muito limpa. A explicação para sua resistência ao mau cheiro era outra: ela não se despedia de seu cachimbo nem para dormir. Sempre mantido no canto da boca, o cachimbo já havia deixado sua marca. E o fumo que ela usava era tão forte que nem precisava ser aceso para causar o mesmo efeito: rivalizava com o cheiro do suor e adormecia as narinas.

 

O mais curioso de toda essa história, embora não fosse tão incomum assim, era que o casal morava em uma casa muito bem ventilada. Em bairros humildes, é comum que as casas sejam geminadas, sem becos entre elas. Normalmente, as casas têm cerca de 8 metros de frente. A casa do casal também era assim, mas as casas vizinhas foram se afastando e diminuindo de tamanho, até que ficaram com apenas 4 metros de frente. Isso proporcionou à casa do casal dois canais de ventilação, um privilégio único naquela rua.

 

Na verdade, o casal era uma bênção para os moradores do bairro. Nunca houve nenhum caso de dengue. Apesar de os órgãos de saúde pública nunca terem ido ao local, a razão para a ausência de doenças era outra: nenhum mosquito, por mais ousado que fosse, ousaria entrar naquele bairro, onde um veneno mortal os aguardava. Além da dengue, não havia casos de sarampo, febre amarela ou qualquer outra doença. Graças à presença amiga do casal, o bairro estava imune a qualquer tipo de praga.

 

Como sabemos, as palestras do Mestre Marçal duram rigorosamente 40 minutos, mesmo diante de protestos, interrupções desmedidas e outras adversidades. No entanto, a saga de Seu Tio e Dona Tia se estendeu por mais do dobro desse tempo. Seria impossível registrar toda a história aqui, neste espaço tão limitado. Seria preciso escrever um livro!

 

Hiran de Melo


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