Narro como sinto – Capítulo 7

O Restaurador de Tesouros Perdidos
Pense
em um espaço diminuto. Dois metros de largura, três metros de comprimento e um
pouco mais de dois metros de altura. Estes são os números que definiam o espaço
ocupado pela oficina do sapateiro mais famoso do nosso bairro. Tinha uma
bancada de trabalho, uma máquina de costura e sapatos velhos (já sem uso,
mortos) para todos os lados e cantos. Além do material necessário para a
ressurreição.
O
Seu Miro era o mágico do conserto de sapatos velhos. Restaurava o que já se
destinava ao lixo. O preço que cobrava era tão baixo que não lhe trazia
prosperidade, mas permitia ao outro ressuscitar belas lembranças associadas aos
sapatos que não se queria enterrar ou jogar fora.
Hoje
a profissão está quase extinta. Com o preço do conserto compram-se dois ou mais
pares de sapatos novos atuais. E sapatos de antigamente, feitos de couro
legítimo, também, não são fáceis de encontrar.
Na
oficina do Seu Miro trabalhavam ele e o seu filho, de nome Pintinho. O
sapateiro costumava rebatizar os filhos com nomes de animais: Pintinho,
Mosquitinho, etc. Tudo com o “inho” que não diminuía. Apenas demonstrava a
plenitude do seu amor.
Outro
milagre me vem à lembrança e não sei por que não me dava conta na época, ao
contrário, achava tudo tão natural: a oficina era um verdadeiro ponto de
encontro. Lá, além dos clientes, se apresentavam ociosos de todas as matrizes
para disputar minúsculos espaços de escuta.
Seu
Miro trabalhava contando histórias, reais ou inventadas, entretecidas com
anedotas e causos que faziam a gente esquecer dos próprios problemas. Entre uma
história e outra, ou no meio da história, soltava um peido ou
mais, provocando gargalhadas.
Dependendo
do barulho ou do fedor, Seu Miro ria alto, sacudindo a barriga sobre o
minúsculo tamborete, e anunciava com entusiasmo: “Este é um campeão”! Embora,
campeão mesmo, fosse aquele que colocava todo mundo para fora do buraco
(desculpe-me, da oficina). Menos, é claro, o Seu Miro que, baixinho e gordo, heroicamente
segurava a barra e ria de onde estava.
O
fedor, como um contraponto musical, anunciava a chegada de uma nova história,
mais saborosa e intrigante. Cessado o incômodo, todos os outros voltavam para
ouvir o resto da história. Era como se fosse radionovela, com o Seu Miro como
um contador de causos capaz de transportar a todos para outros mundos.
Embora
não seja necessário dizer, assim mesmo digo. Alguns dos
"radiouvintes" participavam apenas com olhos e ouvidos, a cabeça na
porta e o corpo de lado de fora, espreitando para não perder nenhum detalhe.
Outros, mais ousados, interrompiam o Seu Miro com perguntas ou comentários,
provocando gargalhadas e debates acalorados.
A
oficina era um microcosmo, onde as diferenças se diluíam e a comunidade se
fortalecia. Tinha história que nos fazia rir e tinha história que nos trazia
arrepios de medo. Mas, a maioria era para rir e não para chorar. Era da
natureza do Seu Miro fazer o povo rir. O sorriso estava sempre largo no seu
rosto bondoso e belo, iluminando a oficina como um farol em meio à escuridão.
Hiran de Melo
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