Narro como sinto – Capítulo 16

A pomba e o símbolo 

 

Na cidade onde nasci, existe ainda hoje um espaço público chamado Praça da Bandeira. Localizado no centro da cidade, é um lugar por onde transitam desde ilustres governantes até o cidadão comum. No entanto, a maior atração são as pombas. Doravante, referir-me-ei a machos e fêmeas simplesmente como "pombas".

 

A alegria das crianças e dos velhos consiste em alimentá-las com milho, jogado nas amplas calçadas. O que mais gosto de ver são os “símbolos da paz” reunidos em voos tão próximos, mas que nunca colidem. No entanto, ao lado de tanta beleza, encontramos o produto final dessa alimentação. Ao final da tarde, é comum encontrar os bancos ocupados pelos dejetos dos pássaros.

 

Também o caminhante poderá ser "alvo" de uma obra da pomba, seja ela voando ou descansando em uma das grandes árvores da praça. Plantadas originalmente para oferecer sombra, essas árvores se tornaram, com o tempo, o lar de muitos pássaros.

 

Contemplo a grande lição de vida ensinada diariamente na Praça da Bandeira: a prática de alimentar os pássaros da paz e as consequências inevitáveis disso. Muitos preferem descrever essas consequências como "fezes que gotejam como chuvas de verão".

 

A recompensa de ver os pássaros alegres e gordos leva muitos a alimentar as pombas, sem que imaginem o resultado final. Poucos desejariam para si os "presentes" que estão prestes a cair.

 

O "deixa a vida me levar" resume bem essa situação. As consequências negativas, embora não previstas nem desejadas, acabam por acontecer. As pombas, por sua vez, são apenas vítimas dessa situação. Retiradas de seus habitats naturais, onde voavam livremente em vastos espaços, a probabilidade de "presentear" alguém com suas fezes era praticamente nula.

 

Na minha infância, a pomba não era um símbolo, mas um alvo. Munidos de estilingues, partíamos alegres e esperançosos para a periferia da cidade em busca da emoção da caça e do prazer de um assado. Nossa sorte, mais do que nossa habilidade, determinava o sucesso de nossas investidas.

 

Hoje, para caçar pombas na Praça da Bandeira, não seria necessária sorte. Bastaria atirar uma pedra. Mas ninguém caça mais. Elas não são mais capazes de encontrar seu próprio alimento e participar da cadeia alimentar.

 

Os tempos mudaram. As pombas agora vivem como parasitas nas praças públicas. Na periferia, já não as encontramos mais. Os estilingues estão adormecidos ou perdidos. As crianças de hoje parecem não desconfiar de nada, já que os velhos pararam de contar histórias. Juntas, as crianças apenas jogam milho para as pombas.

 

De que, afinal, são símbolo essas pombas? Hoje, mais do que representarem a paz, elas simbolizam as obras humanas. A crescente perda dos espaços sagrados e o confinamento da espiritualidade a templos fechados indicam que construímos uma sociedade que não mais vê a natureza como uma mãe sagrada. Ao contrário, a natureza é vista como um objeto a ser explorado e profanado.

 

Libertar as pombas e, ao mesmo tempo, alimentá-las diariamente é uma contradição que aprisiona essas aves em um ciclo vicioso de dependência. Ao retirar delas a necessidade de buscar por alimento, privamo-las de sua natureza selvagem e as transformamos em meros consumidores passivos.

 

Essa dinâmica ecoa em nossa própria sociedade, onde a busca desenfreada por conveniência muitas vezes nos aliena da natureza e nos impede de experimentar a plenitude da vida. É fundamental que restabeleçamos nossa conexão com o mundo natural, aprendendo com as gerações mais antigas e transmitindo esse conhecimento às futuras gerações. Afinal, a liberdade de uma pomba é um reflexo da liberdade que buscamos para nós mesmos.

 

Hiran de Melo


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