
A Luz da Ordem
Sabe,
posso revelar um segredo? Talvez sim, talvez não. Então, vou dizer assim mesmo.
Um dia fui convidado para fazer parte de uma sociedade justa e perfeita.
Reconhecendo-me como injusto e imperfeito, de pronto não aceitei. Claro! Havia
um equívoco naquele convite; mas o grupo de nobres senhores, provavelmente
ideal e impecável, insistiu tanto no convite que acabei aceitando.
Disseram-me
que eu estava na forma de uma pedra bruta, mas que lapidada revelaria a pedra
preciosa, justa e perfeita que seria eu. Ah! Então era isso. Eu não me via
justo e perfeito porque me encontrava impregnado de impurezas que deveriam ser
desbastadas. Fui convencido e aceitei.
Despojado
de minhas vestes e posses, adentrei o santuário dos justos e perfeitos. Num
espaço sem janelas, imerso na escuridão, fui convidado a renascer. A privação
sensorial me conduziu a um estado de profunda introspecção, onde os valores
materiais perdiam seu significado. Naquela escuridão, aguardava a revelação da
'Luz da Ordem', promessa de um novo despertar.
Guardiões atentos vigiavam o limiar
desse espaço sagrado, assegurando a pureza dos iniciados e a inviolabilidade do
ritual.
Semanalmente,
os membros da Loja se reuniam com o objetivo de auxiliar uns aos outros em seu
desenvolvimento pessoal. Através de trabalhos simbólicos e ensinamentos,
buscávamos lapidar a pedra bruta que cada um carrega dentro de si. Graças ao
apoio de mestres experientes e companheiros solidários, alcançamos um novo
patamar em nossa jornada iniciática, sendo elevados ao grau de Companheiro.
Após mais um período de estudos e trabalhos, fomos considerados aptos para a
exaltação ao grau de Mestre.
A
revelação completa da 'pedra preciosa' ainda estava distante. Havíamos apenas
alcançado o terceiro degrau de uma longa escada. Nosso caminho continuaria por
mares desconhecidos, repletos de mistérios. O Ciclo Sagrado, no qual estávamos
imersos, servia como guia para nossa evolução espiritual. No entanto, nossa
vida se dividia entre o sagrado, dentro da Loja, e o profano, no mundo
exterior.
O Critério de Promoção
No
mundo sagrado, a Justiça e a Perfeição eram asseguradas pela meritocracia, que
ditava a distribuição de cargos e funções entre os obreiros. Cada um recebia de
acordo com sua aptidão e desenvolvimento. Essa ordem, por sua vez, fomentava a
igualdade, a liberdade e a fraternidade entre os membros.
Infelizmente, as impurezas do mundo
profano se infiltraram nesse ambiente sagrado. Surgiu, então, a crença de que
esse estado de perfeição era apenas um estágio intermediário, um preparativo
para o Oriente Eterno, um lugar de justiça e perfeição absolutas.
A passagem para esse Oriente Eterno
ocorreria com a libertação da alma imortal do corpo material. Ao completar sua
jornada iniciática, a alma do obreiro transcenderia o mundo físico e habitaria
um reino espiritual superior.
O Não Lugar
Em
nossas reuniões semanais, o Ciclo Sagrado nos proporcionava uma experiência
simbólica de um "Não Lugar", um espaço sagrado onde a Sabedoria se
manifestava. No Oriente, o Venerável Mestre representava essa Sabedoria,
enquanto as duas Luzes Vigilantes, situadas no ocidente, exatamente nas Colunas da Força e da Beleza, completavam as três grandes manifestações da Luz.
A física contemporânea, com sua teoria
dos multiversos, parece corroborar antigas crenças sobre a existência de
dimensões paralelas. Essa noção fortalece a ideia do Oriente Eterno, um reino
transcendente onde reside o Grande Arquiteto do Universo, a fonte de toda
sabedoria. Assim como Platão sugeriu, nossa realidade terrena é apenas uma
sombra imperfeita da realidade ideal. O "Não Lugar" que evocamos em
nossas reuniões é um reflexo desse mundo superior.
Mundo Lúdico
Estas
ideias podem parecer estranhas e até incompreensíveis para alguns. No entanto,
quem já brincou de "casinha" na infância sabe exatamente do que falo.
Criávamos mundos perfeitos e justos em nossa imaginação, famílias ideais que
contrastavam com a realidade muitas vezes imperfeita de nossos lares.
Para muitos, essas brincadeiras eram
apenas isso: brincadeiras. Mas, para nós, elas representavam algo mais
profundo. Acreditávamos que esses mundos imaginários existiam de verdade, pois
éramos plenamente conscientes de que estávamos imitando, em nossa inocência, a
perfeição da Justiça e da Perfeição.
Mundo Real
A
água do rio, assim como a vida, está em constante movimento. O que nos banhamos
ontem já não existe mais. Somos seres em constante transformação, assim como o
mundo ao nosso redor. A impureza que buscamos eliminar acaba por contaminar, em
algum momento, o que antes era puro. A sabedoria ancestral nos lembra: Tudo é como uma névoa, que se dissipa com o vento.
Exortação
Dirijo-me
àqueles que compreendem a linguagem além das palavras, que "ouvem"
com os olhos e "veem" com os ouvidos. Os verbos, como eixos da
linguagem e manifestações do Logos, são a energia vital que anima o cosmos.
Hiran de Melo - Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo
e Aceito
e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.
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