Os Mistérios Maçônicos no Simbolismo - Capítulo 10

A Luz da Ordem

 

Sabe, posso revelar um segredo? Talvez sim, talvez não. Então, vou dizer assim mesmo. Um dia fui convidado para fazer parte de uma sociedade justa e perfeita. Reconhecendo-me como injusto e imperfeito, de pronto não aceitei. Claro! Havia um equívoco naquele convite; mas o grupo de nobres senhores, provavelmente ideal e impecável, insistiu tanto no convite que acabei aceitando.

 

Disseram-me que eu estava na forma de uma pedra bruta, mas que lapidada revelaria a pedra preciosa, justa e perfeita que seria eu. Ah! Então era isso. Eu não me via justo e perfeito porque me encontrava impregnado de impurezas que deveriam ser desbastadas. Fui convencido e aceitei.

 

Despojado de minhas vestes e posses, adentrei o santuário dos justos e perfeitos. Num espaço sem janelas, imerso na escuridão, fui convidado a renascer. A privação sensorial me conduziu a um estado de profunda introspecção, onde os valores materiais perdiam seu significado. Naquela escuridão, aguardava a revelação da 'Luz da Ordem', promessa de um novo despertar.

 

Guardiões atentos vigiavam o limiar desse espaço sagrado, assegurando a pureza dos iniciados e a inviolabilidade do ritual.

 

Semanalmente, os membros da Loja se reuniam com o objetivo de auxiliar uns aos outros em seu desenvolvimento pessoal. Através de trabalhos simbólicos e ensinamentos, buscávamos lapidar a pedra bruta que cada um carrega dentro de si. Graças ao apoio de mestres experientes e companheiros solidários, alcançamos um novo patamar em nossa jornada iniciática, sendo elevados ao grau de Companheiro. Após mais um período de estudos e trabalhos, fomos considerados aptos para a exaltação ao grau de Mestre.

 

A revelação completa da 'pedra preciosa' ainda estava distante. Havíamos apenas alcançado o terceiro degrau de uma longa escada. Nosso caminho continuaria por mares desconhecidos, repletos de mistérios. O Ciclo Sagrado, no qual estávamos imersos, servia como guia para nossa evolução espiritual. No entanto, nossa vida se dividia entre o sagrado, dentro da Loja, e o profano, no mundo exterior.

 

O Critério de Promoção

 

No mundo sagrado, a Justiça e a Perfeição eram asseguradas pela meritocracia, que ditava a distribuição de cargos e funções entre os obreiros. Cada um recebia de acordo com sua aptidão e desenvolvimento. Essa ordem, por sua vez, fomentava a igualdade, a liberdade e a fraternidade entre os membros.

 

Infelizmente, as impurezas do mundo profano se infiltraram nesse ambiente sagrado. Surgiu, então, a crença de que esse estado de perfeição era apenas um estágio intermediário, um preparativo para o Oriente Eterno, um lugar de justiça e perfeição absolutas.

 

A passagem para esse Oriente Eterno ocorreria com a libertação da alma imortal do corpo material. Ao completar sua jornada iniciática, a alma do obreiro transcenderia o mundo físico e habitaria um reino espiritual superior.

 

O Não Lugar

 

Em nossas reuniões semanais, o Ciclo Sagrado nos proporcionava uma experiência simbólica de um "Não Lugar", um espaço sagrado onde a Sabedoria se manifestava. No Oriente, o Venerável Mestre representava essa Sabedoria, enquanto as duas Luzes Vigilantes, situadas no ocidente, exatamente nas Colunas da Força e da Beleza,  completavam as três grandes manifestações da Luz.

 

A física contemporânea, com sua teoria dos multiversos, parece corroborar antigas crenças sobre a existência de dimensões paralelas. Essa noção fortalece a ideia do Oriente Eterno, um reino transcendente onde reside o Grande Arquiteto do Universo, a fonte de toda sabedoria. Assim como Platão sugeriu, nossa realidade terrena é apenas uma sombra imperfeita da realidade ideal. O "Não Lugar" que evocamos em nossas reuniões é um reflexo desse mundo superior.

 

Mundo Lúdico

 

Estas ideias podem parecer estranhas e até incompreensíveis para alguns. No entanto, quem já brincou de "casinha" na infância sabe exatamente do que falo. Criávamos mundos perfeitos e justos em nossa imaginação, famílias ideais que contrastavam com a realidade muitas vezes imperfeita de nossos lares.

 

Para muitos, essas brincadeiras eram apenas isso: brincadeiras. Mas, para nós, elas representavam algo mais profundo. Acreditávamos que esses mundos imaginários existiam de verdade, pois éramos plenamente conscientes de que estávamos imitando, em nossa inocência, a perfeição da Justiça e da Perfeição.

 

Mundo Real

 

A água do rio, assim como a vida, está em constante movimento. O que nos banhamos ontem já não existe mais. Somos seres em constante transformação, assim como o mundo ao nosso redor. A impureza que buscamos eliminar acaba por contaminar, em algum momento, o que antes era puro. A sabedoria ancestral nos lembra: Tudo é como uma névoa, que se dissipa com o vento.

 

Exortação

 

Dirijo-me àqueles que compreendem a linguagem além das palavras, que "ouvem" com os olhos e "veem" com os ouvidos. Os verbos, como eixos da linguagem e manifestações do Logos, são a energia vital que anima o cosmos.

 

Hiran de Melo - Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo e Aceito e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito Adonhiramita.


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