Os Mistérios Inefáveis - Capítulo 04

Os Mistérios dos Prebostes e Juízes,
Grau 7
Introdução
No sistema de governo monárquico o rei institui as leis,
julga e executa. Não há divisão de poderes. A manifestação da presença do
Estado em três poderes distintos e independentes foi instituída em diversos
lugares aos poucos, conforme o nível de desenvolvimento dos habitantes que
constituíam um núcleo de poder. Os Mistérios dos Prebostes e Juízes inclui este
processo histórico na Lenda de Hiram.
O Manual do Grau Sete é de uma brevidade espantosa, de modo
que tem ensejado a alguns escritores maçons a buscar no Livro Sagrado dos
Judeus material para exteriorizar o significado desses mistérios.
Tribunal Superior
Com o assassinato do Mestre Hiram, os trabalhos da
construção do Templo foram interrompidos por um curto período. Um novo mestre
de obras foi designado, mas a tarefa não se limitava à retomada da construção.
Era fundamental garantir a segurança do novo arquiteto e estabelecer um sistema
de justiça eficaz dentro do projeto.
A solução encontrada foi criar um colegiado responsável por
julgar todas as disputas, substituindo assim a figura de um único juiz. Esse
grupo não se limitaria a avaliar o desempenho dos trabalhadores, mas teria
jurisdição sobre todos os habitantes do reino. A lição moral do Grau Sete, portanto, é a importância da justiça igualitária para todos.
Assim, o rei Salomão instituiu um Tribunal Superior composto
por sete prebostes e juízes, sob a liderança de Tito. Este último era o
guardião da chave da urna que guardava os registros de todas as reclamações e
decisões judiciais passíveis de revisão.
Preboste e Juiz
Uma visita ao Livro da Lei faz surgir uma distinção entre os
vocábulos "Preboste" e "Juiz", “sendo que o primeiro diz
respeito a uma Justiça Militar e o segundo a uma Justiça civil.” “Dentre os
3.600 Inspetores, parte constituía exército, porque a manutenção da disciplina,
considerando serem 150.000 os trabalhadores, era tarefa que exigia o poder da
força. Inspetores eram os que orientavam, administrativamente, e os que zelavam
pela disciplina”.
Note que na distribuição original não existia a presença de
militares na obra. Aqui é um acréscimo decorrente da opção de estender a Lenda
de Hiram. No simbolismo a construção do Templo é uma obra de caráter civil. No
Grau Sete, a construção assumiu característica mista. Daí a instituição de um
coletivo julgador composto por Prebostes e Juízes.
Os elementos místicos
Os escritores maçônicos que possuem formação na área das
Ciências Jurídicas apresentam exaustivos estudos especulativos sobre a natureza
laica dos ensinamentos dos Mistérios dos Prebostes e Juízes. Não é nossa
intenção tratar a questão por este ângulo, mas sim abordar a
mística contida nos mistérios.
Nas instruções do Grau, encontramos os elementos místicos.
Eu e mais seis irmãos, no Grau Seis, formamos uma coluna, guiados pelo Mestre
de Cerimônias, e paramos diante da porta do Templo. Ouvimos as batidas rítmicas
característicos do novo grau e, então, a porta se abriu, permitindo-nos
adentrar no Templo. As batidas ainda ecoavam pelos quatro cantos do Templo e,
em seu centro, uma singularidade se destacava, impondo harmonia e unidade
divina.
Após a iniciação, realizada conforme o ritual, com as
devidas formalidades e juramentos, nos foi confiada a chave da urna de ébano,
onde estavam guardados os planos para a construção do Templo. Além disso, nos
foi mostrado o local onde se conserva o coração do Mestre Hiram.
O coração, em todos os mistérios, representa o centro
místico do homem. É nele que residem todos os mistérios e onde o tesouro é
guardado. Sabemos que os mistérios são celebrados em um local sagrado, apartado
do mundo profano, permitindo aos iniciados uma experiência contemplativa e a
percepção de realidades que só se revelam quando os sentidos comuns estão
adormecidos.
Nos Mistérios dos Prebostes e Juízes, encontramos outros
dois espaços sagrados dentro da Loja: a urna, que abriga o Coração do Mestre
Hiram, e o baú, que contém os planos arquitetônicos do Templo.
Aplicação da Justiça com Amor
A mística deste Grau Inefável revela ao iniciado que a
Justiça deve ser temperada pelo amor, resultando em uma justiça amorosa.
Reciprocamente, o amor verdadeiro só floresce quando fundamentado na justiça,
dando origem a um amor justo.
Explorando mais profundamente essa revelação contida nos
Mistérios dos Prebostes e Juízes, podemos compreender que julgar alguém ou algo
pressupõe o conhecimento prévio do objeto do julgamento. Ao conhecer, somos
capazes de acolher as diferenças e, nesse ato de acolhimento, o amor se
manifesta. Analogamente, para amarmos alguém ou algo, é preciso antes conhecer
suas qualidades e reconhecer seu valor.
Essas revelações nos conduzem a uma postura prudente,
proativa e atenta, na qual a justiça e o amor se entrelaçam de forma
harmoniosa.
Na Idade Média, o comportamento das pessoas era julgado com
base em padrões rígidos e predefinidos. Mulheres que se desviavam desses
padrões eram frequentemente acusadas de possessão demoníaca e condenadas à
morte na fogueira.
É paradoxal que esses julgadores, que se proclamavam
seguidores de um Deus de amor, agissem com tamanha crueldade. A ausência de
justiça amorosa em seus julgamentos era evidente, pois não houve qualquer
esforço para compreender e acolher as diferenças. A falta de conhecimento levou
à aplicação de punições severas, desconsiderando o adágio que afirma: "Não
há justiça sem amor, assim como não há amor sem justiça".
Podemos aprofundar a mística deste Grau ao refletirmos sobre
um belo conto relatado por Walter Rehfeld em seu livro "Mística
Judaica". Nele, um Mestre, por um erro cometido, ouve de seus colegas que
perdera seu lugar no Oriente Eterno. Sua resposta, no entanto, revela uma
nobreza de espírito: "Que bom, agora posso servir sem visar
recompensa."
Conclusão
A busca por uma "justiça igual para todos", como
nos ensinam os Mistérios dos Prebostes e Juízes, exige mais do que a simples
aplicação de leis. Ela demanda o cultivo
das virtudes maçônicas de prudência,
atenção e zelo, que nos capacitam a conhecer, acolher e julgar com amor. Ao
praticarmos essa justiça, não apenas contribuímos para um mundo mais justo e
equânime, mas também nos aproximamos dos ideais de fraternidade e tolerância que norteiam a maçonaria.
Exortação
Que cada um de nós se inspire nessa busca constante pela
justiça, aplicando esses princípios em todas as esferas de nossas vidas. E
assim, contribuindo para a construção de uma sociedade mais amorosa e fraterna.
Hiran de Melo - Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo
e Aceito
e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.
Alerto que o texto acima apresentado é uma
provocação ao seu coração inteligente. Cada parágrafo foi redigido como um
convite à reflexão, e não como um ensinamento para ser decorado e tê-lo como um
dogma. A título de exemplo, apresento uma possível análise e interpretação do
parágrafo relativo a Conclusão.
Anexo: Análise e Interpretação da Conclusão
Interpretação
A frase nos convida a refletir sobre o papel do maçom como
agente transformador da sociedade. A busca por uma justiça mais humana e
equitativa não é uma tarefa fácil, mas é um dos grandes desafios da nossa
época. Ao cultivar as virtudes maçônicas, podemos contribuir para a construção
de um mundo mais justo e solidário.
Aplicações Práticas:
A conclusão nos incentiva a sermos mais justos em nossas
relações pessoais, buscando compreender as perspectivas dos outros e evitando
julgamentos precipitados;
No ambiente de trabalho, podemos aplicar os princípios da
justiça ao lidar com colegas e subordinados, promovendo um clima de respeito e
colaboração;
Como cidadãos, podemos participar ativamente da vida
política, buscando influenciar as decisões que afetam a sociedade como um todo.
Em Resumo: A conclusão nos apresenta uma visão
abrangente da justiça, que vai além do cumprimento formal da lei. Ela nos
convida a sermos agentes de transformação, buscando construir um mundo mais
justo e humano. Ao praticar a justiça com amor e compreensão, podemos
contribuir para a realização dos ideais maçônicos de fraternidade e tolerância.
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