Os Mistérios Inefáveis - Capítulo 10
Os Mistérios do Cavaleiro do Arco Real,
Grau 13
Abertura aos Mistérios
Peguei o Livro da Lei em minhas mãos,
abri-o e li em voz alta: “Disse Deus ainda a Moisés: Eu Sou o que Sou. Apareci
a Abraão, a Isaque e a Jacó como o Deus todo-poderoso, mas pelo meu nome – Eu
Sou o que Sou - não me revelei a eles”.
Uma nuvem embasou os meus olhos. Fiquei
em um estado não ordinário: nem dormindo e nem acordado. Então, de repente, um
monte apareceu ao meu olhar. No pico dele, o Tetragrama de Ouro me atraiu
irresistivelmente. Subi o monte com firme determinação. No pico, o que
encontrei foi uma tampa retangular tendo no centro uma grande argola de ferro.
Levantei a tampa e vi uma escada em caracol, por ela desci até o último degrau.
Neste momento a escada se fez ausente. Olhei para o alto e não vi mais a
abertura por onde entrei. O que vi foi a abóboda celeste, o Sol, a Lua, os
planetas e estrelas.
No ambiente em que eu me encontrava não
havia portas e nem janelas. As paredes eram de uma brancura que refletiam a
Luz. O pavimento que eu pisava era composto por pedras nas cores preta e
branca. No centro do pavimento se elevava sobre um pedestal quadrangular uma
pirâmide transparente, de três faces, em cada qual se encontra o Tetragrama
Sagrado. Vi, ainda, que um no interior da pirâmide existia um candelabro de
três braços ardendo em chamas. Chamas que iluminavam, aqueciam, mas não
queimavam.
A abóboda estava sustentada por nove
arcos. Em cada arco, o nome de um dos
nove Arquitetos ou nove formas de se denominar o Criador. Três vezes Três
manifestações do Grande Arquiteto do Universo.
No
interior da Terra
Entrei em um sono profundo e quando
acordo, encontrei-me participando dos Mistérios do Cavaleiro do Arco Real, na
condição de recipiendário. Sentindo, ainda, ecoando no meu coração, a voz que
profetiza: não há contratempo, por maior que seja o obstáculo, que possa deter
ou afastar o Iniciado no Caminho da Perfeição. Bendito o Eu Sou o que Sou e o
seu Santo Nome.
Vi três altares. O do norte vazio. O
seu provável ocupante estava ao lado do Três Vezes Poderoso Mestre, que se
encontrava no Altar do Oriente. Senti as presenças do Rei Salomão com uma coroa
de ouro e pedras preciosas na cabeça, acompanhado por Hiram – Rei de Tiro –
tendo nas mãos um cetro encimado por uma coroa; e no Sul o Mestre Adonhiram,
segurando uma espada com a mão direita. Em verdade, melhor seria dizer que o
que vi se parece com o que descrevo. Encontrava-me em um ambiente celestial,
mas que não se localiza nos Céus. Ao contrário, estava eu no centro da terra.
Nos
Mistérios do Cavaleiro do Arco Real, o iniciado desce às profundezas da Terra,
adentrando um labirinto de símbolos e mistérios. Lá, ele encontra as raízes da
criação e vislumbra os planos divinos para a construção do Templo Sagrado,
morada da paz interior.
Concluímos
os Mistérios do Cavaleiro Arco Real em companhia de outros dois irmãos. O
relato completo de nossa missão está devidamente registrado no Manual do Grau.
Nele, descrevemos nossa descoberta da Abóboda Celeste, do Delta Sagrado e da
insígnia divina que nele se encontrava.
Contemplamos
o nome do Criador, uma experiência que nos levou a uma profunda compreensão da
liberdade religiosa. A diversidade de nomes divinos inscritos nos arcos nos
revelou a importância de respeitar as diferentes formas de expressão da fé.
Compreendemos que o Grande Arquiteto se manifesta de forma única a cada
iniciado, revelando-se de acordo com a capacidade de compreensão de cada um.
Assim, somos impelidos a buscar incessantemente o aperfeiçoamento interior, a
fim de que possamos compreender mais plenamente a imensidão divina que habita
em nós e no universo.
Educação e Religião
Durante
os rituais iniciáticos, os discursos das autoridades nos apresentam
ensinamentos profundos. Um deles, que me marcou profundamente, advertia sobre
os perigos de confundir educação e religião. No entanto, acredito que a
educação, ao despertar o intelecto, nos capacita a ouvir a voz interior e a
compreender os mistérios do universo. A fé e a razão não são forças opostas,
mas complementares.
Os
mistérios iniciáticos nos convidam a experimentar a verdade por nós mesmos, a
fim de transcender dogmas e construir uma compreensão pessoal da realidade. Ao
cultivarmos tanto a mente quanto o espírito, podemos alcançar uma sabedoria que
nos permitirá construir um mundo mais justo e harmonioso.
A experiência mística
A
experiência mística oferece a possibilidade de um encontro direto com o divino,
o que Tomás de Aquino denominou 'cognitio dei experimentalis'. Essa
experiência, que transcende a razão, envolve uma profunda transformação da
consciência e uma nova compreensão da realidade.
Ao
vivenciar um estado de união com o absoluto, o indivíduo experimenta uma forma
de conhecimento que integra razão, emoção e intuição. É importante ressaltar
que essa experiência não se limita a uma única tradição religiosa, mas é um
fenômeno universal que tem sido relatado por místicos de diversas culturas ao
longo da história.
Experiências místicas
Os
rituais maçônicos frequentemente fazem referência a narrativas bíblicas como
ponto de partida para a busca pelo Sagrado Indefinível. No entanto, essa busca
apresenta nuances significativas quando comparada à abordagem do Judaísmo
Clássico.
Enquanto
a Maçonaria, influenciada pelo pensamento ocidental, busca uma experiência
mística e um conhecimento direto do divino, o Judaísmo Clássico enfatiza a
obediência à lei divina e a construção de uma relação pessoal com Deus através
das práticas religiosas.
Para o
judeu clássico, o foco está em compreender a vontade divina, e não em definir a
natureza de Deus, que é considerada transcendente e incognoscível. Essa
diferença de enfoque reflete as distintas tradições culturais e filosóficas que
moldaram essas relações com o Divino, gerando práticas espirituais e
experiências místicas diferentes.
Embora
a Bíblia Hebraica seja dominada por narrativas históricas, cujo objetivo
principal é transmitir ensinamentos religiosos e fortalecer a identidade do
povo, ela também contém relatos de experiências místicas profundas.
O
livro de Ezequiel, por exemplo,
descreve visões escatológicas e simbólicas que transcendem a compreensão
literal. A linguagem utilizada por Ezequiel, rica em simbolismo e imagens
poéticas, exige uma interpretação cuidadosa e contextualizada.
A
"mística da carruagem", por exemplo, apresenta uma estrutura
arquitetônica celestial que conduz o profeta a uma experiência de êxtase
místico. A intensidade da visão, marcada por luzes que levam a cegueira e sons
poderosos, culmina em um momento de silêncio absoluto, onde a voz de Deus se
manifesta de forma indireta. Essa linguagem simbólica, embora desafiadora,
oferece aos leitores a oportunidade de participar da experiência mística do
profeta e de aprofundar sua compreensão do divino.
Nos Mistérios do Cavaleiro do Arco Real, a
experiência mística se desenrola em um ambiente simbólico ricamente elaborado,
onde cada detalhe, desde a arquitetura do templo até a disposição dos objetos,
possui um significado profundo. A busca pelo nome divino, a palavra primordial
que deu origem a todas as coisas, é o centro dessa jornada iniciática.
Símbolos
como a escada Jacob, o delta luminoso e a palavra perdida servem como guias
nessa busca, conectando o iniciado com as forças cósmicas e com a tradição
esotérica.
O
Livro de Enoch, uma obra apócrifa de grande importância para a mística judaica,
oferece um rico pano de fundo para os mistérios maçônicos. A visão de Enoch de um templo celestial e
a sua descida aos céus para receber revelações divinas ecoam nos rituais e
ensinamentos maçônicos, onde a construção do templo interior é vista como uma
meta fundamental. A referência a Enoch permite que os maçons se conectem com
uma tradição mística mais antiga e mais ampla, transcendendo as fronteiras das
diferentes religiões.
Exortação
A
mística maçônica, assim como a mística presente no Livro de Enoch, enfatiza a
importância da experiência pessoal e da busca interior. Ao desvendar os
mistérios dos símbolos e dos rituais, o iniciado se aproxima da compreensão da
ordem cósmica e de seu lugar no universo. A busca da palavra perdida é, em última análise, uma busca pela própria
identidade e pela conexão com o divino.
Hiran de Melo - Sublime Príncipe do Real Segredo, Grau 32 do Rito Escocês Antigo
e Aceito
e Cavaleiro Noaquita, Grau 13 do Rito
Adonhiramita.
Alerto que o texto acima apresentado é uma
provocação ao seu coração inteligente. Cada parágrafo foi redigido como um
convite à reflexão, e não como um ensinamento para ser decorado e tê-lo como um
dogma. A título de exemplo, apresento uma possível análise e
interpretação do parágrafo relativo a exortação.
Anexo A: Análise e Interpretação da Exortação
A exortação
apresenta uma visão abrangente e profunda sobre a mística maçônica,
estabelecendo conexões relevantes com o Livro de Enoch e destacando
elementos-chave da experiência iniciática.
Elementos-chave abordados na exortação:
ü A mística, tanto na Maçonaria quanto no
Livro de Enoch, é apresentada como uma jornada individual e subjetiva, na qual
o iniciado busca respostas para as grandes questões da existência através da
introspecção e da reflexão;
ü Os símbolos e rituais maçônicos são
vistos como ferramentas para facilitar a compreensão da ordem cósmica e a
conexão com o divino. Ao desvendar seus significados, o iniciado se aproxima de
uma realidade mais profunda;
ü A busca pela palavra perdida é
apresentada como o objetivo central da jornada iniciática. A palavra perdida é
vista como a chave para a compreensão da criação e da própria identidade;
ü A afirmação estabelece uma conexão entre
a mística maçônica e o Livro de Enoch, destacando a importância desta obra
apócrifa para a compreensão da tradição esotérica.
Análise mais detalhada:
ü A afirmação coloca a experiência
mística como um caminho para o autoconhecimento e para a conexão com algo maior
do que si mesmo. Essa perspectiva é comum em diversas tradições esotéricas e
religiosas;
ü Os símbolos maçônicos são vistos como
portais para dimensões de significado mais profundas. Ao trabalhar com os
símbolos, o iniciado não apenas decodifica mensagens, mas também ativa
processos internos de transformação;
ü A busca pela palavra perdida é uma metáfora
para a busca pela essência da realidade
e pela compreensão do próprio lugar no
universo. É uma jornada que exige paciência, perseverança e um profundo
compromisso com o autodesenvolvimento;
O Livro de Enoch, com suas visões celestiais e revelações secretas, oferece um rico material para a reflexão mística. A conexão entre a Maçonaria e o Livro de Enoch sugere uma continuidade na tradição esotérica ocidental.

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