Segunda Instrução do Grau de
Companheiro Maçom Adonhiramita
Por Hiran de Melo
O
Companheiro Adonhiramita é um obreiro desperto: reconhece a própria força,
governa suas ações e sabe que sua missão é transformar em realidade o plano
traçado pelos Mestres. Seu coração e sua mente movem-se pela busca: desvendar
os mistérios da Natureza e da Ciência, penetrar no sentido da letra “IOD” — a
mesma “G” que ressoa em Geometria, Gravidade, Gênio e Gnose.
A Geometria,
aqui, não se limita a linhas e ângulos; é ciência universal que constrói o
grande edifício social e, ao mesmo tempo, lapida o homem, tornando-o digno de
ocupar seu lugar. A Gravidade, que mantém os astros em seu curso, encontra eco
no Amor Fraternal, sustentando a coesão da Ordem e tornando-a firme, harmoniosa
e estável.
O Gênio,
fruto da posse de si mesmo, é inspiração que une a razão ao entusiasmo criador,
sem ultrapassar os limites do talento, vibrando em sintonia com harmonias
superiores. Já a Gnose é conhecimento profundo, herança silenciosa dos que,
pela dedicação, alcançam a compreensão das causas primeiras.
Passar da
Coluna “J” para a Coluna “B” é mais do que atravessar um espaço: é transição do
raciocínio disciplinado ao pensamento iluminado. É o momento em que a razão já
não caminha sozinha, mas de mãos dadas com a imaginação e a sensibilidade,
elevando-se às causas dos fenômenos.
A Segunda
Instrução do Companheiro Adonhiramita, apresentada na forma dialogal entre o
Venerável Mestre e os Vigilantes, não é apenas um roteiro de perguntas e
respostas. É, antes, uma dramaturgia iniciática que encena a travessia do ser
em busca de sua lapidação — um itinerário simbólico que ensina ao iniciado não
apenas a ciência da construção, mas a arte de edificar a si mesmo e à
sociedade.
À luz de
Louis Antoine Travenol, essa instrução revela-se como pedagogia do equilíbrio.
Cada resposta ilumina um aspecto da vida maçônica, sem encerrar-se em si:
abre-se como diálogo fecundo entre opostos — razão e imaginação, luz e sombra,
absoluto e relativo. A régua traça a linha da lei moral, enquanto o compasso
recorda os limites da condição humana; o maço e o cinzel representam a união da
determinação enérgica com a sabedoria prudente; a alavanca mostra a potência da
vontade quando orientada pela justiça. Assim, o labor da oficina converte-se em
metáfora do labor da consciência.
A letra G
constitui a síntese desse grau, desdobrando-se em Geometria, Gravidade, Gênio e
Gnose. A Geometria transcende a técnica e converte-se em ciência da vida, que,
polindo o homem, o torna digno do edifício social. A Gravidade, que une os
corpos celestes, é imagem do Amor Fraternal que une corações. O Gênio é chama
interior que vibra em harmonia com o alto. E a Gnose é travessia pelo
conhecimento, conduzindo ao reencontro com as causas primeiras.
As colunas,
ocas, guardam tesouros, lembrando que o sentido do rito não se revela à
superfície, mas ao iniciado que ousa aprofundar-se. A marcha com passos
laterais indica liberdade de espírito: o Companheiro pode afastar-se do
caminho, explorar novas sendas, mas deve regressar à retidão do raciocínio. O
pavimento mosaico recorda que a vida é feita de contrastes, cujo equilíbrio dá
sentido à existência.
A Estrela
Flamígera, no centro da Loja, é imagem culminante dessa lição: o iniciado deve
arder sem consumir-se, ser luz sem perder-se no excesso do brilho. Nela se
revela a inteligência verdadeira, nascida da tensão criadora entre razão e
imaginação, sol e lua, rigor e sensibilidade.
As joias
móveis e imóveis completam a instrução: não são apenas ferramentas de pedra,
mas regras de conduta. O esquadro, o nível e o prumo ensinam solidariedade,
igualdade e elevação moral. A pedra bruta, a pedra cúbica e o painel da Loja
expressam o itinerário humano: do estado grosseiro à lapidação, até a justa
integração na Grande Obra Universal.
A Segunda
Instrução, portanto, não descreve apenas graus, colunas e palavras de passe:
reflete um caminho interior. O homem, de pedra informe, converte-se em pedra
cúbica — ajustada, sólida e digna de integrar a construção universal. É nesse
movimento que se cumpre a promessa iniciática: não a posse de um segredo, mas a
transformação íntima — sempre em vir-a-ser, sempre em construção.
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