Terceira Instrução do Grau de Companheiro Maçom Adonhiramita

Por Hiran de Melo

O Companheiro Adonhiramita prossegue na senda da Luz, aprofundando-se nos mistérios do Grau e sedimentando os conhecimentos recebidos.

Seu reconhecimento se dá por um sinal, duas palavras e um toque.

O sinal, feito com a mão direita sobre o coração, é a memória viva do juramento prestado. Ele expressa o compromisso de amar fraternalmente, guardando a serenidade e o domínio sobre as paixões, e de jamais ceder a impulsos irrefletidos.

A primeira palavra, a de passe, é simbolizada pela espiga de trigo — sinal de fartura e abundância. Sua origem remonta ao episódio bíblico de Jefté e dos Efraimitas: após a vitória, Jefté ordenou que se guardassem as passagens do Jordão e que cada viajante pronunciasse a palavra sagrada.

Incapazes de articulá-la corretamente, quarenta e dois mil Efraimitas pereceram.

No plano iniciático, essa palavra remete aos Mistérios de Ceres, onde o iniciado vivia a alegoria do grão de trigo: enterrado no inverno para renascer na primavera, num ciclo de morte aparente e renovação da vida.

A segunda palavra, a sagrada, significa perseverança no bem — virtude indispensável para o avanço espiritual.

À entrada do Templo de Salomão, erguem-se as duas Colunas, lembrando os antigos obeliscos egípcios e gravadas com sinais que apenas os iniciados compreendiam. Feitas de bronze, simbolizam a permanência dos princípios iniciáticos. Mediam dezoito côvados de altura, mais cinco de capitel adornado com rendilhado e romãs. Seu interior oco guardava, simbolicamente, o tesouro e as ferramentas do ofício — a Doutrina Iniciática, reservada àqueles que vão além das aparências.

A marcha do Companheiro, com passos laterais, ensina que o buscador da Verdade não se prende a um único caminho. Pode explorar, desviar-se, experimentar — mas sempre retornando à retidão do raciocínio, para que a imaginação não o conduza ao erro.

Os ornamentos da Loja de Companheiro são o Pavimento Mosaico, a Estrela Flamígera e a Orla Dentada.


O Pavimento Mosaico, com suas peças brancas e pretas, ensina o equilíbrio e a lei dos contrastes. Recorda que a felicidade contínua e sem luta degenera em tédio; a verdadeira alegria nasce do esforço, da superação e da perseverança.

A Estrela Flamígera é o símbolo central do Grau. Convida o Companheiro a ser luz e calor — generoso nos sentimentos, mas guiado por uma inteligência clara. Suas cinco pontas representam os quatro membros e a cabeça que os governa, domínio da vontade sobre a matéria. Posicionada em triângulo com o Sol e a Lua, revela que a compreensão nasce tanto da razão quanto da imaginação.

A Orla Dentada, contornando o teto da Loja, é acompanhada pela corda de 81 nós, os “laços de amor” que formam a Cadeia de União — elo invisível e eterno entre os Irmãos.

Assim, cada detalhe e símbolo da Loja orienta o Companheiro para um viver equilibrado, perseverante, ardente na busca da Verdade e firme na fraternidade.

Análise à luz de Louis Antoine Travenol

Louis Antoine Travenol via na Maçonaria um exercício vivo de moral aplicada, onde cada símbolo não é mero ornamento, mas uma ferramenta para a formação do caráter. Nessa perspectiva, a Terceira Instrução é um roteiro de lapidação interior: o sinal sobre o coração não é apenas gesto, mas compromisso de retidão afetiva; a espiga de trigo não é só fartura, mas memória de que a vida renasce da entrega e do sacrifício; as Colunas não são apenas marcos arquitetônicos, mas guardiãs de um saber que exige esforço para ser decifrado.

Para Travenol, a marcha lateral do Companheiro traduz a liberdade de buscar a Verdade em diferentes direções, mas sempre com disciplina interior para retornar ao eixo. O Pavimento Mosaico e a Estrela Flamígera, lidos nessa chave, revelam-se como lições de equilíbrio e de vontade consciente, unindo razão e imaginação numa síntese harmoniosa. A Orla Dentada e a Cadeia de União, por sua vez, recordam que a jornada iniciática não é solitária: o aprimoramento individual só encontra pleno sentido quando se traduz em vínculo fraterno.

Sob essa luz, a Terceira Instrução não é apenas um compêndio simbólico, mas um manual de vida, onde cada detalhe — do gesto mais simples ao ornamento mais elaborado — é um convite à coerência entre o que se aprende no Templo e o que se pratica no mundo.


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